Por: Eliana Rezende Bethancourt
Há acontecimentos que não admitem leitura apressada. Ainda que seja um acontecimento que sabe-se será histórico.
Uma coletiva do presidente dos Estados Unidos contra a Venezuela não é um episódio lateral da política internacional, nem um gesto isolado de retórica agressiva.
Ela se inscreve numa longa duração histórica marcada pela pretensão norte-americana de domínio sobre a América Latina, reiteradamente tratada como zona de influência, reserva estratégica, espaço disponível à tutela e à intervenção.
O continente foi, desde o século XIX e segue sendo no XXI, pensado como quintal geopolítico — lugar onde a soberania alheia pode ser relativizada em nome da ordem, da segurança ou de um interesse superior.
É desse lastro histórico que a cena precisa ser lida e entendida.
Nada ali é casual.
Cada gesto, cada imagem, cada palavra carrega esse peso acumulado de intervenções, bloqueios, golpes apoiados e narrativas de salvação impostas de fora.
No presente, porém, o poder já não se anuncia prioritariamente pela lei, pelo tratado ou pela diplomacia.
Ele começa antes — na opção de enquadramento, na escolha da cena, no controle do tempo, do silêncio e do olhar.
Governa-se, cada vez mais, pela imagem.
Em Palm Beach, o espaço estava montado como palco: cortinas azuis espessas, luxo ostensivo (lustres acesos, tapetes e cores pesadas), um púlpito isolado no centro da sala.
Os repórteres aguardavam havia mais de trinta minutos.
O atraso não era um erro de agenda: era parte da dramaturgia.
O vazio produzia suspensão, expectativa, um silêncio carregado que preparava o ambiente.
Enquanto nada acontecia ali, o acontecimento real já havia sido deslocado para outro lugar.
Antes da palavra, veio a imagem.
Nas redes, Trump fez circular a fotografia de um homem vendado, imobilizado dentro de um avião, apresentado como líder derrotado.
A imagem antecede a entrevista e a organiza.
Não ilustra o discurso: o prepara.
Primeiro, o impacto visual: depois, a fala que o legitima.
A política, na gramática consolidada por Donald Trump, opera assim: captura-se o olhar antes que qualquer argumento seja formulado.
Mas não apenas Trump, essa lógica de humilhar e prender o “inimigo” é uma constante. Impossível não lembrar de outra imagem saída do mesmo roteiro:

Do ponto de vista semiótico, o centro da imagem não está no avião, nem na ideia de captura, nem no deslocamento forçado.
Está na venda nos olhos realizada por um acessório cotidiano e usado por muitos de nós: os óculos escuros. Só que para este caso, seu uso subverteu sua função primeira.
Aqui os óculos escuros serviram para vendar.
Vendar é retirar o mundo de quem vê.
É suspender a condição de sujeito.
Um corpo que não vê é um corpo disponível — transportável, administrável, exibível.
Acorrentado apresenta as limitações próprias dos movimentos.
A humilhação não aparece como excesso de força ou brutalidade, mas como sua linguagem fundamental.
Não basta subjugar politicamente, é preciso rebaixar simbolicamente.
Essa humilhação não fala apenas de um indivíduo.
Ela funciona como mensagem coletiva.
Do ponto de vista antropológico, trata-se de uma pedagogia do poder: humilhar é ensinar. Ensinar hierarquias, ensinar medo, ensinar obediência.
O corpo vendado comunica limites e destinos possíveis.
A violência deixa de ser apenas física ou institucional: torna-se exemplar, performativa, pedagógica.
Mas essa imagem não surge isolada.
Ela é o ponto culminante de uma escalada cuidadosamente construída.
Antes do chamado “dia derradeiro”, houve uma sucessão de cenas espetaculares em dias anteriores que serviam como uma escalada de aproximação: helicópteros de guerra sobrevoando áreas costeiras, interdições marítimas encenadas como operações heroicas, sequestros de navios de petróleo em águas internacionais, explosões noturnas de pequenas embarcações supostamente ligadas ao tráfico — muitas delas apontadas por observadores independentes como barcos de pesca.
O fato concreto tornava-se secundário.
O que importa é o efeito.
A política passava a ser conduzida por ruídos, sons e imagens.
O barulho das hélices, o estrondo das explosões, os enquadramentos noturnos, os corpos correndo, os comunicados curtos e ameaçadores.
Tudo conspirava para produzir impacto e impor temor.
Não se tratava apenas de combater um inimigo, mas de construir o medo como linguagem de um governo que quer estender domínios sobre outro.
A ameaça não precisava ser constante: precisava ser visível, audível, compartilhável.
Essa teatralidade culmina na cena máxima da pirataria institucionalizada: o sequestro do líder e de sua esposa, apresentados como troféus finais de uma narrativa de força.
O roteiro — já conhecido do cinema e da televisão — era seguido à risca.
Não havia espaço para mediações jurídicas ou diplomáticas.
O direito internacional torna-se um obstáculo narrativo, algo a ser contornado em nome de uma suposta urgência moral e política.
Ao final do dia, a encenação atinge seu ápice.
Câmeras transmitem ao vivo o aeroporto de Nova York.
O avião pousa.
A espera se prolonga por mais de trinta minutos.
As portas se abrem.
Agentes do Federal Bureau of Investigation entram em bloco, ocupam o espaço, dominam a cena.
Os prisioneiros são retirados.
O mundo assiste.
A soberania é convertida em espetáculo televisivo argumentativo.
A s imagens para a eternidade estão ali e a narrativa está dada.
Nesse ponto, corpo e território se fundem definitivamente.
A humilhação do indivíduo legitima a apropriação e humilhação da terra.
Quando o petróleo venezuelano aparece no discurso como algo que pode ser tratado como “nosso”, não estamos diante de um deslize retórico, mas de uma coerência colonial.
Apagado o sujeito, apaga-se a soberania.
O território torna-se extensão do corpo vendado: algo apropriável, explorável, deslocável.
Primeiro, retira-se o olhar: depois, retira-se o subsolo.
A retórica da proteção ao povo, do combate ao tráfico ou da restauração da ordem surge como legenda tardia para imagens que já fizeram o trabalho simbólico essencial.
Nunca foi sobre drogas.
Nunca foi sobre democracia.
Esses termos funcionam como clichês discursivos, prontos para legitimar a intervenção.
O núcleo do conflito está nas riquezas naturais, nos minérios, no petróleo — e na velha convicção imperial de que certos recursos pertencem a quem tem força para tomá-los.
Estamos diante de uma forma contemporânea de colonialismo.
Um colonialismo versão século XXI que não depende apenas de ocupação territorial, mas de pirataria visual e simbólica: interdições espetaculares, sequestros encenados, imagens de força convertidas em narrativa moral.
O saque aparece como missão.
A invasão, como responsabilidade.
O direito internacional, com sua linguagem lenta e baseada em princípios, torna-se incômodo diante da eficácia do choque.
Essa lógica só se sustenta porque se ancora numa estética específica: a estética do grotesco.
Luxo deslocado, teatralidade excessiva, humilhação convertida em espetáculo.
O mau gosto não é falha: é método.
Ele simplifica o mundo, elimina nuances, dispensa mediações intelectuais, acrescenta apenas a ideia de um mundo binário (divido entre o Bem e o Mal)
A política passa a operar com os códigos do entretenimento ou de seita. Não há questionamentos.
Tudo é assimilado como natural.
Até por parte de quem deveria ser capaz de fazer colocações pertinentes que são os meios de comunicação.
Mas o que tivemos foram análises rasas que não foram além da profundidade de uma lâmina d’água.
Não por acaso, esses códigos dialogam com décadas de colonização cultural produzida pelos Estados Unidos .
Cinema, televisão e publicidade ensinaram o mundo a reconhecer o vilão, o corpo capturado, o helicóptero no céu, o avião no asfalto, o suspense antes da punição.
O imaginário foi treinado para aceitar a violência quando ela se apresenta como necessidade histórica.
A diferença, agora, é que a ficção se apresenta como política oficial.
O enquadramento de guerra torna-se enquadramento de governo.
A lógica do blockbuster — impacto, simplificação moral, desfecho punitivo — substitui o debate, o tratado, a negociação.
A imagem vence o argumento.
A cena governa onde antes governava o direito.
As múltiplas imagens — o salão vazio de Palm Beach, os helicópteros, os navios sequestrados, as explosões noturnas, o corpo vendado no avião, o aeroporto transmitido ao vivo — pertencem à mesma gramática.
Em todas elas, o poder se encena antes de se explicar.
Em todas, a violência é preparada como espetáculo.
Em todas, a dominação se afirma pelo olhar.
Não se trata apenas de uma crise política.
Trata-se de uma crise estética, moral e intelectual.
Quando a política passa a operar por imagens de humilhação, ruído e choque, o mundo deixa de ser regulado por princípios e passa a ser governado por cenas.
A barbárie deixa de ser exceção e passa a ser método — sempre apresentada como inevitável.
Reaprender a ver, nesse contexto, é um gesto histórico e ético.
Ver é desmontar o enquadramento, reconhecer os códigos, recusar a naturalização do grotesco.
Porque antes de toda invasão territorial, de toda pilhagem de riquezas, de toda violação do direito internacional, há sempre uma imagem ensinando que tudo isso é aceitável.
E quando o mundo aprende a achar aceitável, o império já venceu — muito antes de falar.
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