De escritos e Tempos
Por: Eliana Rezende Bethancourt
Escrever sobre as próprias memórias é também um exercício de encontrar o ritmo de sua narração. As lembranças não chegam todas da mesma maneira, nem obedecem à ordem que gostaríamos de lhes dar. Algumas vêm lentamente, como águas que parecem apenas deslizar diante de nós; outras são águas de corredeira, passam rápidas, arrastam consigo outras imagens, outros tempos, pequenos acontecimentos que julgávamos esquecidos e que, de repente, estão novamente ali. Talvez escrever memórias seja justamente aprender a modular esses diferentes ritmos, sem represar demais aquilo que pede passagem e sem apressar o que necessita de tempo para encontrar sua forma.
Tenho pensado nisso porque estar diante das próprias memórias coloca um desafio muito diferente daquele que tantas vezes encontrei em meu trabalho como historiadora. Quando ouvimos as histórias dos outros, nosso primeiro exercício é o da escuta: acompanhar uma voz, perceber seus silêncios, respeitar seus tempos, compreender as associações que aquela pessoa estabelece para narrar a própria experiência. Diante de nossas memórias, porém, somos ao mesmo tempo quem lembra e quem precisa encontrar uma forma para aquilo que é lembrado. O exercício da escuta cede lugar ao desafio da narração — ou talvez seja necessário aprender a escutar a si mesma antes de escrever.
Há nisso uma dificuldade particular para quem está habituada à escrita intelectual. Como transformar sensações, imagens, gestos e lembranças em texto sem retirar delas aquilo que as fez retornar? Como exercer sobre a memória o trabalho da escrita sem torná-la excessivamente ordenada, como se a vida tivesse acontecido segundo a lógica retrospectiva que lhe atribuímos? A memória tem seus próprios movimentos, e talvez o exercício esteja justamente em encontrar uma escrita intelectual que possa pensá-los sem perder o ritmo da narração.
Foi um pouco isso que me aconteceu hoje.
Neste 13 de agosto de 2026, acordei e me dei conta de que há exatos 30 anos defendia minha Dissertação de Mestrado, Alquimia Sedutora, Substanciada em Imagem: a Crônica Fotográfica de São Paulo nas Primeiras Décadas do Século XX. E, ao pensar nesses trinta anos, não me ocorreu apenas aquilo que pesquisei, escrevi ou defendi. Vieram junto as formas pelas quais aquele trabalho foi sendo feito, os objetos que me cercavam, as tecnologias de que dispúnhamos, os arquivos que percorri, os documentos que tive nas mãos e até os medos que acompanhavam a escrita.
Uma lembrança foi chamando outra, como costuma acontecer.
E foi assim que comecei a me lembrar não apenas da dissertação, mas de como aquela dissertação foi materialmente produzida.

Comecei a redigi-la em 1994, num momento em que aquilo que hoje entendemos como parte corriqueira da produção acadêmica simplesmente não existia, ou ainda estava muito distante do nosso cotidiano. Boa parte da dissertação começou numa máquina de escrever, e escrever numa máquina significava estabelecer com o texto uma relação muito diferente daquela que temos hoje. Qualquer alteração exigia uma operação material: se era necessário inserir uma nota de rodapé, mudar um parágrafo de lugar ou reorganizar uma parte do argumento, não havia o gesto quase inconsciente de selecionar, cortar e colar na tela. Eu fazia isso literalmente. Usava papel kraft, recortava os trechos, deslocava-os, colava novamente, acrescentava as notas, experimentava outra disposição. Caso contrário, restava datilografar tudo outra vez. Havia, portanto, uma espécie de edição física do pensamento, como se as ideias precisassem encontrar seu lugar também no espaço concreto da página antes que o texto pudesse prosseguir.
E havia ainda uma dificuldade que, no meu caso, era particularmente importante: eu trabalhava com imagens. Fotografias, revistas ilustradas e álbuns de família constituíam parte fundamental da pesquisa, mas os processos de digitalização estavam muito distantes da facilidade com que hoje produzimos, reproduzimos e fazemos circular uma imagem. Eu trabalhava com xerox das figuras e das páginas das revistas ilustradas, enquanto o acesso a imagens digitalizadas permanecia excepcional e restrito a determinados ambientes.
Entre 1991 e 1993, antes de iniciar a dissertação, eu havia trabalhado no Projeto Banco de Dados Iconográficos do Museu Paulista, com uma bolsa de aperfeiçoamento do CNPq, e foi ali que tive contato com imagens digitalizadas e com equipamentos que haviam vindo de fora do Brasil. Era uma experiência bastante particular, porque eu podia perceber as possibilidades abertas por aquela tecnologia e, ao mesmo tempo, bastava sair daquele ambiente institucional para reencontrar um mundo essencialmente analógico. As duas temporalidades conviviam, mas ainda não sabíamos exatamente o que essa convivência significaria.
Depois do meu exame de qualificação, uma pequena revolução aconteceu na minha própria casa. Uma amiga, que estava cerca de seis meses à minha frente no percurso acadêmico, havia comprado um computador 286 e estava de retorno para o Amazonas. Como o transporte seria caro e ela imaginava que, estando próxima à Zona Franca de Manaus, poderia adquirir outro equipamento, ofereceu-me aquele computador por um valor muito abaixo do mercado. Foi assim que tive meu primeiro computador e foi nele que a dissertação começou, finalmente, a passar da máquina de escrever para o arquivo digital.
Mas essa passagem não aconteceu sem desconfiança. Eu simplesmente não conseguia acreditar inteiramente que poderia escrever alguma coisa à noite, desligar o computador e, na manhã seguinte, encontrar tudo novamente ali. Hoje isso me diverte, mas naquele momento o medo era muito concreto. Eu continuava escrevendo os rascunhos à mão e só depois os digitava, como se o papel ainda precisasse garantir que o pensamento não desapareceria durante a noite. E imprimia sempre que podia, porque a impressão me oferecia outra segurança: uma vez transformado novamente em papel, o texto parecia estar a salvo.
Talvez por isso eu tenha também uma lembrança muito viva — e hoje muito divertida — da pasta em que carregava os originais da dissertação. Ela ia comigo para todos os lugares. Quando saía do carro para entrar na faculdade ou para fazer qualquer outra coisa, jamais deixava aquela pasta dentro dele. Algumas pessoas estranhavam e perguntavam por que eu ficava andando com o original da dissertação para cima e para baixo, e minha resposta era muito simples: preferia que roubassem o carro a levarem a minha dissertação.
Pode parecer uma resposta engraçada agora, mas havia nela uma lógica bastante razoável. Aqueles papéis continham anos de pesquisa e de escrita e, em determinados momentos, eram efetivamente o meu original. Não havia uma cópia na nuvem, uma sincronização automática ou a possibilidade de abrir o mesmo documento em outro computador. Perder aquela pasta poderia significar perder uma parte imensa do trabalho realizado. Assim, durante algum tempo, minha dissertação teve uma existência curiosamente móvel: circulava comigo, debaixo do braço, protegida não por um sistema de armazenamento, mas pela minha decisão de não me separar dela.
Quando penso naquela jovem pesquisadora andando com seus originais para cima e para baixo, às vezes me ocorre, com certo humor, que sou uma espécie de sobrevivente do tempo. Não porque tenham se passado tantos anos assim, mas porque, em apenas três décadas, desapareceram gestos e preocupações que então faziam parte naturalmente da produção do conhecimento. E talvez essa sensação seja ainda mais forte porque toda a minha experiência de pesquisa naquele período estava profundamente ligada à materialidade dos documentos.
Minha formação como historiadora e pesquisadora aconteceu em contato direto com arquivos físicos e com documentos em seus suportes originais. Consultei documentos guardados em latas, manuseei inquéritos policiais nos arquivos da Segurança Pública de São Paulo, li originais de discursos da Câmara Municipal de São Paulo, tive diante de mim cartas e cartões postais escritos no início do século XX. Cada um desses documentos chegava com sua própria materialidade e, de alguma maneira, era impossível separar completamente aquilo que ele dizia da forma pela qual havia atravessado o tempo e chegado às nossas mãos.
Com as revistas ilustradas que utilizei na dissertação acontecia algo semelhante. Eu trazia comigo as cópias xerográficas de que precisava para trabalhar, mas a consulta nos acervos e bibliotecas era feita diante dos exemplares originais. Era preciso folhear aquelas revistas, observar suas páginas, a impressão, a disposição das fotografias, a relação entre imagem e texto, perceber dimensões e sequências. O xerox permitia levar uma parte daquele material para casa, mas não reproduzia inteiramente a experiência do objeto que havia encontrado no arquivo.
Há uma experiência do arquivo que nenhuma reprodução substitui por completo, e talvez seja por isso que me seja tão cara a expressão de Arlette Farge, o sabor do arquivo. Depois que temos nas mãos um documento original, alguma coisa muda em nossa relação com o passado, porque o documento deixa de ser apenas aquilo que está escrito, impresso, fotografado ou registrado nele. Passamos a perceber também o suporte, as dimensões, a textura, as marcas, o envelhecimento, a disposição das informações, os vestígios de circulação e de uso. O documento nos fala pelo que contém, mas também pela maneira como existe, e essa presença material participa daquilo que podemos conhecer a partir dele.
No caso da minha pesquisa, essa relação com os suportes não se limitava ao documento escrito ou à fotografia. Como eu trabalhava também com álbuns de família, precisava entrevistar as famílias, ouvir suas histórias, identificar pessoas, circunstâncias e relações que as fotografias, sozinhas, não poderiam me oferecer. Esses depoimentos também dependiam de uma tecnologia e de uma materialidade muito específicas: eram registrados em fitas K-7, com equipamentos que exigiam atenção às pilhas, ao tempo de gravação, ao funcionamento do aparelho, à própria conservação daquele registro. Enquanto eu escutava uma história, havia sempre também uma parte de mim atenta à possibilidade de aquela voz não estar sendo gravada.
Olhando retrospectivamente, percebo como tudo tinha um suporte e como eu circulava constantemente entre eles. O texto passava pelo papel e pela máquina de escrever antes de chegar ao computador; a fotografia estava no álbum; a revista, em suas páginas; a voz, na fita K-7; a dissertação, nos disquetes. Pesquisar significava também encontrar esses suportes, consultá-los, manipulá-los, reproduzi-los quando isso era possível e cuidar para que permanecessem.
E aqui a memória parece fazer uma curva e me devolver justamente àquela desconfiança que eu tinha do computador, porque talvez ela não fosse tão absurda quanto hoje poderia parecer. Guardei a dissertação nos suportes digitais de que dispúnhamos naquele momento, os disquetes, e ainda os tenho comigo. O curioso é que eles permaneceram fisicamente enquanto a possibilidade de acessar aquilo que continham desapareceu. As máquinas mudaram, os leitores desapareceram, os formatos tornaram-se obsoletos e, durante muitos anos, tive em minhas mãos os objetos nos quais estava gravada a dissertação sem conseguir chegar ao documento que permanecia, de alguma maneira, aprisionado dentro deles.
Foi por isso que recentemente fiz um movimento que me parece quase uma síntese desses trinta anos: digitalizei novamente a dissertação a partir do exemplar em papel para poder voltar a possuí-la em formato digital. Aquilo que havia saído do computador para o papel precisou, décadas mais tarde, fazer o caminho inverso. O papel, que no início eu via como uma garantia diante da fragilidade que atribuía ao digital, acabou sendo justamente o suporte que permitiu recuperar digitalmente o trabalho.
Até a fotografia da capa guarda uma marca daquele tempo. Ela tem uma tonalidade arroxeada que hoje poderia ser tomada por uma escolha estética, mas que era, na verdade, resultado das limitações técnicas de impressão. Quando pedíamos uma fotografia colorida, aquilo era aproximadamente o máximo de “colorido” que conseguíamos obter com os recursos disponíveis. E gosto de tê-la conservado assim, porque aquele roxo deixou de ser simplesmente uma deficiência de reprodução. Tornou-se vestígio de uma tecnologia, de uma possibilidade técnica, de uma época.
Talvez seja isso que mais me intrigue ao olhar agora para Alquimia Sedutora. A dissertação tratava justamente de fotografia, imagem, reprodução, circulação e construção de representações visuais e, enquanto eu investigava historicamente esses objetos e seus suportes, minha própria pesquisa estava sendo produzida no interior de uma transformação profunda dos suportes da escrita e da imagem. Eu pesquisava documentos do começo do século XX em seus originais enquanto começava a escrever num computador 286; trabalhava com fotografias e revistas ilustradas por meio de xerox enquanto conhecia as primeiras possibilidades da digitalização; ouvia e registrava depoimentos em fitas K-7; guardava meu texto em disquetes; imprimia páginas porque ainda desconfiava da permanência do arquivo digital e carregava os originais comigo porque aquela pasta era, em muitos momentos, a garantia material de que minha pesquisa continuaria existindo.
Há nisso uma convivência extraordinária de temporalidades tecnológicas que eu certamente não poderia perceber com a mesma clareza enquanto a vivia. Em apenas três décadas, gestos que faziam parte do cotidiano da pesquisa tornaram-se quase arqueológicos, enquanto tecnologias que nos pareciam extraordinárias desapareceram ou foram substituídas por outras com uma velocidade igualmente extraordinária. Meus disquetes ainda estão aqui, silenciosos e ilegíveis, como pequenos objetos dessa arqueologia pessoal.
E talvez seja justamente por isso que, trinta anos depois, eu perceba que a própria dissertação se tornou um documento dessa história. Sua capa arroxeada registra os limites de uma impressão colorida; os disquetes que já não consigo ler registram a velocidade da obsolescência tecnológica; o exemplar em papel, recentemente digitalizado, registra a curiosa inversão pela qual aquilo que um dia havia sido impresso a partir de um arquivo tornou-se o meio para que esse arquivo pudesse novamente existir. Há uma espécie de arqueologia da minha própria trajetória em tudo isso, e ela me devolve àquilo que os arquivos sempre me ensinaram: o conhecimento também possui uma materialidade, e os documentos não são apenas recipientes de informações, mas vestígios que carregam as marcas dos caminhos que percorreram.
Talvez seja esse o balanço possível neste 13 de agosto. Ao longo desses trinta anos mudaram as máquinas, os suportes, as maneiras de pesquisar, escrever, reproduzir, armazenar e fazer circular o conhecimento, e algumas tecnologias que pareciam anunciar o futuro tornaram-se, muito rapidamente, objetos do passado. O que permaneceu foi esse desejo de interrogar os vestígios, compreender aquilo que carregam e encontrar maneiras de fazê-los atravessar o tempo.
E então volto àquela jovem pesquisadora que caminhava com a dissertação debaixo do braço, temendo que, num descuido qualquer, anos inteiros de trabalho pudessem desaparecer. Hoje essa lembrança me faz sorrir, não apenas pelo que há de insólito naquela cena, mas porque consigo reconhecer nela alguma coisa que atravessou todos esses anos. Eu ainda não sabia quantas transformações tecnológicas veria, quantos suportes se tornariam obsoletos e quantas vezes precisaríamos reaprender a guardar aquilo que produzimos. Talvez soubesse apenas, mesmo sem formular dessa maneira, que preservar é uma das formas que encontramos para conversar com o tempo e, quem sabe, também para resistir um pouco a ele.
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