Por: Eliana Rezende Bethancourt
❦ Post Scriptum (2026)
Transcorridos os anos, volto a este texto e encontro nele uma espécie de continuação de uma pergunta que eu já vinha fazendo antes. Em Profissionais na maturidade como ativo organizacional, interessava-me compreender o que a experiência acumulada poderia representar para as organizações. Em Juniorização e perda de Capital Intelectual nas Organizações, a pergunta ganhou outra direção: o que acontece quando uma organização decide prescindir dessa experiência?
Juniorização nunca significou, para mim, a presença de jovens no mundo do trabalho. Seria absurdo transformar gerações em antagonistas ou supor que idade corresponda automaticamente a conhecimento, competência ou capacidade de inovação. Organizações precisam de profissionais em diferentes momentos de suas trajetórias, trazendo repertórios, formações, perguntas e modos distintos de perceber os problemas. O equívoco começa quando renovação deixa de significar convivência e transmissão para se transformar em substituição sistemática, frequentemente orientada pela redução de custos.
Nesse movimento, o que parece uma simples troca de profissionais pode carregar perdas menos visíveis. Sai uma pessoa, entra outra; o cargo permanece, o organograma permanece, os sistemas continuam funcionando e os documentos continuam armazenados. Administrativamente, a substituição parece concluída. Mas conhecimento não obedece à mesma lógica de reposição. Uma trajetória profissional não pode ser transferida como se transfere uma pasta, uma senha ou uma função.
Foi esse ponto que me inquietou quando escrevi sobre a perda de Capital Intelectual e que continua a me inquietar. Parte considerável do conhecimento produzido dentro de uma organização não está depositada em seus repositórios. Documentos registram decisões, procedimentos formalizam rotinas, sistemas armazenam informações, bases de dados preservam registros. Nada disso, isoladamente, contém a experiência de quem aprendeu a interpretar situações, reconhecer recorrências, identificar exceções, estabelecer relações e compreender por que determinadas escolhas foram feitas e outras abandonadas.
Quando um profissional experiente sai sem que existam processos de transmissão, convivência, documentação e aprendizagem, não desaparece apenas uma pessoa do quadro funcional. Podem desaparecer com ela percursos inteiros de compreensão da organização. Perdem-se contextos que davam sentido aos registros, relações entre acontecimentos aparentemente dispersos, razões que nunca chegaram aos documentos formais, soluções construídas diante de circunstâncias específicas e até a memória dos erros — talvez uma das formas mais caras de conhecimento que uma organização produz.
Curiosamente, transcorridos os anos, o vocabulário organizacional tornou-se ainda mais pródigo em expressões como Gestão do Conhecimento, Capital Intelectual, aprendizagem organizacional, retenção de talentos, lifelong learning, reskilling e upskilling. Fala-se também em diversidade geracional e longevidade profissional. A multiplicação das palavras, entretanto, não garante que aquilo que nomeiam tenha sido incorporado às práticas. Uma organização pode afirmar que valoriza conhecimento e, simultaneamente, manter processos de desligamento incapazes de preservar aquilo que seus profissionais aprenderam enquanto trabalharam nela.
A chegada da Inteligência Artificial acrescenta uma camada particularmente interessante a essa contradição. Nunca tivemos tantos recursos para registrar reuniões, transcrever depoimentos, organizar documentos, localizar informações, relacionar grandes volumes de dados e recuperar conteúdos dispersos. Isso amplia extraordinariamente as possibilidades de preservação e circulação da informação organizacional. Mas também pode alimentar uma velha ilusão sob nova roupagem: imaginar que, se tudo puder ser capturado, armazenado e recuperado, o conhecimento das pessoas terá sido preservado.
Não terá.
Informação registrada é condição preciosa para a produção e a transmissão de conhecimento, mas não se confunde com ele. Uma ferramenta pode localizar milhares de documentos em segundos; pode sintetizá-los, classificá-los e estabelecer relações entre seus conteúdos. Ainda assim, alguém precisa compreender por que determinada informação importa naquele contexto, reconhecer aquilo que não foi registrado, desconfiar das lacunas, confrontar versões e atribuir significado ao que foi recuperado. A abundância de informação torna essa operação intelectual ainda mais necessária.
Talvez por isso a juniorização mereça ser observada hoje para além da idade dos profissionais envolvidos. Ela também pode ser compreendida como uma determinada maneira de pensar o trabalho: funções seriam facilmente substituíveis porque procedimentos estão documentados, sistemas armazenam o necessário e tecnologias poderiam compensar rapidamente diferenças de repertório. Nessa lógica, experiência aparece como custo, enquanto informação armazenada aparece como sucedâneo suficiente do conhecimento acumulado.
É uma conta aparentemente simples cuja perda raramente aparece na planilha em que a economia foi registrada.
Também aqui encontro uma continuidade com o texto anterior. Se antes eu procurava chamar atenção para aquilo que profissionais maduros poderiam oferecer às organizações, ao escrever sobre juniorização passei a observar o problema pelo avesso. Não se tratava apenas de reconhecer o valor de quem permanecia, mas de compreender aquilo que poderia desaparecer com quem saía.
Hoje acrescentaria uma dimensão que me parece ainda mais importante: preservar conhecimento não significa conservar pessoas indefinidamente em seus lugares nem impedir a renovação dos quadros profissionais. Significa construir condições para que o conhecimento circule antes que uma trajetória termine; para que diferentes gerações trabalhem juntas tempo suficiente para trocar repertórios; para que documentação e experiência se encontrem; para que quem chega não precise reconstruir sozinho aquilo que a organização já aprendeu — algumas vezes pagando novamente pelos mesmos erros.
Renovar equipes pode ser necessário. Incorporar jovens profissionais é indispensável. Novas formações, outras experiências e perguntas diferentes mantêm organizações intelectualmente vivas. Mas renovação sem transmissão produz rupturas que podem ser confundidas com modernização simplesmente porque seus custos não aparecem imediatamente.
Relendo este texto, continuo encontrando a mesma questão que o originou, agora cercada por tecnologias muito mais poderosas e por um vocabulário organizacional muito mais sofisticado.
Uma organização pode substituir profissionais rapidamente. O tempo necessário para construir o conhecimento que eles levam consigo obedece a outro relógio.
Tempos atrás lia sobre como o cérebro de meia-idade pode ganhar habilidade surpreendentes conforme envelhecemos, mas isso não ocorre para todos. Apesar disso, uma ressalva: só quem sempre manteve hábitos saudáveis e vida intelectual ativa conseguem essa tão desejada superativação.
O cérebro parece escolher dar menos atenção ao lado ruim da vida.
Há nisso mais inteligência e sabedoria do que um cérebro jovem talvez seja capaz de perceber.
Acho fantástica essa perspectiva que a vida, o tempo, nossos neurônios e toda essa composição podem oferecer a nosso intelecto e a nossa essência.
O tema sempre encontra eco: até porque todos os que se mantém com atividades sentem essa forma que a vida encontra para dar-nos dias ao mesmo tempo em que o intelecto deixa de competir com o físico, e descobrimos que apesar das marcas da vida, a sabedoria dos anos nos faz bem melhores.
Dá-nos um certo apaziguamento da alma saber que crescer em anos não significa necessariamente perder!
Esse raciocínio nos dá uma outra perspectiva de vida. Afinal, vivemos em um mundo tão voltado para o exterior e para as aparências que imaginar que os anos nos trarão maiores e melhores condições para nos relacionarmos com nossas ideias parece ser mesmo uma grande vantagem. Uma sociedade que luta constantemente para manter a juventude, lida mal com a passagem do tempo.
No decurso de minha experiência profissional, lidando muitas vezes com a coleta de depoimentos em Projetos de Memória Institucional, recebo inúmeros relatos de pessoas que se sentem aos 60, 70, 80 e até 90 anos com mais vigor mental e intelectual do que anteriormente nas suas existências. Pense Oscar Niemeyer.
A juventude, por mais irônico que pareça, traz mais sobressaltos e inquietações.
Daí pensarmos a relação íntima e altamente produtiva entre senescência e conhecimento. O casamento de ambos traz às organizações possibilidades incríveis e trazem às mesmas o que se chama de capital intelectual nas organizações.
Conheça um pouco sobre um e outro clicando na imagem do slideshare:
Em geral muitos descobrem, por exemplo, que a escrita ou produção intelectual neste momento da existência encontra poder criativo muito maior e que há agilidade de ideias: a alma liberta-se e todos ganham.
O repertório que trazemos conosco não envelhece jamais.
Estamos sempre recriando e renovando: mesmo que sejam ideias antigas, pois o olhar de hoje carrega outras experiências que no momento anterior não tínhamos.
Ter essa perspectiva liberta e mostra que o tempo é mesmo um grande aliado de nossas existências, e que o corpo é apenas um invólucro que carrega nosso verdadeiro tesouro.
Fantástico ter a exata noção de que, tal como um músculo, o cérebro quando exercitado, nunca deixa de responder. E que o tempo aliado às experiências vividas e experimentadas podem fornecer conexões muito mais certeiras do que as que ocorrem nos jovens: já que estes contam apenas com o que lhes é extrínseco. Ainda aprenderão a transformar vivências em experiência.
São de fato, os artifícios que o tempo e a existência nos oferecem e brindam.
Importante pensar o tempo não como uma caminho de perdas! Pode e deve ser um caminho de libertação, já que maduros deixamos as inseguranças e inexperiências próprias da juventude para trás.
Ganhamos a possibilidade de aliarmos experiência com ação. E isso cá entre nós é o caminho para alargamento do espírito!
E isso que as instituições precisam e devem perceber. Nossa sociedade está envelhecendo e manter-se-á muito mais tempo em período de maturidade do que o seu contrário. Vale a pena redimensionar conceitos e valores. Só assim este beneficio se estenderá à pessoas, organizações e sociedades.
De tudo, o que sei é que importa bem pouco qual seja o artifício dos neurônios em festa e confraternização outonal: o que conta mesmo é que não estejam em fuga como tantos profetizavam.
Com isso as passagens das cifras numéricas que insistimos em chamar de anos sejam apenas e tão somente cifras, e para o bem de todos descobrimos que é bom “ler” o mundo com todos os nossos neurônios mais maduros e sensíveis.
São flores e frutos do outono de nossas existências!
A passagem do tempo pode fazer muito mais do que trazer linhas de expressão: vincam a alma e nos talham. Nos lapidam para melhorar.
Oxalá seja sempre assim!
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