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O vendedor de Enciclopédias: das malas de couro aos algoritmos

Por: Eliana Rezende Bethancourt*

Olhando pela vidraça da janela da sala, chegando como uma novidade esperada, vem o vendedor de enciclopédia. 
Havia qualquer coisa de solene naquele caminhar tranquilo. Não era apenas um homem atravessando a rua. Era alguém que parecia trazer notícias de um mundo muito maior e mais multifacetado do que o nosso.
Eram eles que traziam o mundo em puzzle e informações à conta-gotas em formatos de verbete. 

Sempre bem engomados, ternos escuros, camisa de um branco reluzente. sapatos bem engraxados e as meias combinando ora com o sapato, ora com as calças, cabelos bem penteados, muitas vezes usando alguma pomada, sorriso aberto, voz macia. Ofereciam janelas para o mundo direto de nossas portas quando de dentro de suas malas faziam surgir coloridos livros, imagens, textos e toda uma parafernália de estímulo aos sentidos e à imaginação.

Sonhos, fantasias e até o mito de mascatear cultura vinham em meio à suas páginas ofertadas em diferentes composições e possibilidades. Muitas vezes, folhadas ávidamente por dedos rápidos e olhares curiosos de clientes domiciliares.  Sua páginas pareciam trazer um mundo distante, organizado e aparentemente inteiro.

Talvez por isso fossem recebidos com tanta expectativa. Não traziam apenas uma coleção de livros. Traziam pequenas frestas de luz para além das fronteiras conhecidas do cotidiano. Cada novo verbete iluminava um território até então desconhecido; cada ilustração afastava um pouco as penumbras da ignorância; cada mapa permitia percorrer distâncias que a vida, muitas vezes, jamais permitiria alcançar.

Não raro, aquelas páginas produziam um efeito inesperado. Enquanto apresentavam mundos desconhecidos, aproximavam-nos também de nós mesmos. Crianças descobriam vocações entre verbetes de astronomia, jovens fascinados por mapas que jamais deixariam de viajar em pensamento, leitores que encontravam nas páginas de arte, literatura ou história perguntas que carregariam por toda a vida. Viajar pelo mundo era, muitas vezes, uma forma silenciosa de iniciar uma viagem para dentro de si.

O vendedor de enciclopédias não comercializava apenas coleções de folhas encadernadas em formato de livros. Oferecia percursos. Em sua mala de couro vinham acondicionados mapas, imagens, metáforas, tempos históricos, civilizações inteiras, descobertas científicas, obras de arte, paisagens distantes e personagens que atravessavam séculos. Cada volume ampliava um pouco mais as fronteiras do conhecido e convidava o leitor a percorrer territórios onde a imaginação caminhava de mãos dadas com a curiosidade.

Havia, em cada coleção, uma estranha capacidade de suspender o tempo. Bastava abrir um volume para atravessar fronteiras invisíveis., encontrar frestas do tempo e histórias suspensas.

Em poucos minutos, o leitor deixava a sala de casa para caminhar pelas ruas de Atenas, acompanhar as caravanas que cruzavam o deserto, observar a construção das catedrais medievais, ouvir Bach, contemplar as pinturas de Van Gogh ou seguir Darwin em suas viagens.

As enciclopédias condensavam séculos de experiência humana e os ofereciam como convite à descoberta.

Materializavam o sentido do saber e informação de um mundo que corria analogicamente, com notas de rodapé e com pesquisas cruzadas manualmente. Artefatos construídos com rigor interno e estética que fosse agradável aos olhos. Verbetes remetiam a outros verbetes, referências conduziam a novas leituras e índices funcionavam como mapas para percursos intelectuais que cada leitor construía lentamente.

Em grandes formatos favoreciam a visibilidade de letras e imagens, as capas duras ornadas em detalhes dourados faziam a diferença em qualquer prateleira ou estante. Perfiladas lado a lado davam a dimensão da abrangência dos temas que tratavam.

As enciclopédias foram por largos tempos sonhos de consumo e símbolo de status de camadas eruditas da população. Tê-las significava entre outras coisas ter acesso a um conjunto de informações diversas e grandes possibilidades de gerar conhecimento. Por largos tempos foi sinônimo de status social e cultural. 

As enciclopédias não eram para apressados, diletantes ou preguiçosos. Eram para os que tinham o prazer da degustação por caminhos de indagação e pesquisa. Era para aqueles que de fato liam e buscavam conexões e compreensões. 
Exigiam curiosidade. Exigiam disposição para caminhar sem saber exatamente onde a pesquisa terminaria. Muitas das descobertas aconteciam justamente porque, ao procurar um assunto, encontrava-se outro inesperado no caminho.

À noite, eram também companheiras das histórias infantis. Dividiam espaço nas estantes com livros de fadas, duendes, Sacis e Emílias. A convivência entre imaginação e consulta fez parte da formação de muitas gerações.  

Mas o tempo foi passando e o personagem com o terno engomado e sua mala de couro preta cheia de livros e folhetos demonstrativos não encontra mais nossas portas. Subiu no seu fusca e nos abandonou no tempo e no espaço.
Nunca mais vi um vendedor de enciclopédias caminhar pelas ruas.
Hoje é uma rememoração distante, quase perdido nas névoas do tempo. 

O mundo de babel algorítmica não tem mais lugar para este tipo urbano que habitou por tantas décadas nosso imaginário.

Hoje os percursos são outros. Já não esperamos que alguém toque a campainha trazendo o mundo numa mala de couro. Motores de busca, hiperlinks, plataformas digitais e algoritmos reorganizam, em poucos instantes, um volume de informações que antes ocupava estantes inteiras. Mudaram os suportes, aceleraram-se os percursos e multiplicaram-se as formas de acesso.

Não há aqui saudosismo piegas: há apenas a constatação da configuração de um novo tempo e de nossa relação com estes saberes constituídos e reunidos em um determinado local. 

Cada época constrói seus próprios suportes para organizar o mundo.

As enciclopédias responderam admiravelmente às necessidades de seu tempo. A internet respondeu às de outro. A inteligência artificial inaugura agora novas possibilidades, novos desafios e novos equívocos.

Imagino que nenhuma criança volte a esperar um vendedor de enciclopédias atravessando lentamente a rua. As janelas continuam abertas, mas o mundo já não chega caminhando pela calçada. Chega silenciosamente pelas telas, convocado por um clique, reorganizado por algoritmos, recomposto a cada pergunta.

Ainda assim, sempre que penso naquele homem de terno escuro e mala de couro, volto, por um instante, à vidraça da sala. E compreendo que algumas viagens começam muito antes de sabermos que estamos partindo.

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Texto publicado originalmente no Blog Pensados à Tinta

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