Por: Eliana Rezende Bethancourt
Não sei exatamente quando me apaixonei pela História. Provavelmente porque algumas paixões não aconteçam em um instante preciso, com data e hora que possamos registrar. Vão chegando devagar, abrindo pequenas frestas, ocupando espaços dentro de nós, alterando imperceptivelmente a maneira como vemos as coisas, até que um dia descobrimos que já não sabemos olhar o mundo sem elas. Comigo foi assim.
A História entrou pela minha vida através da magia da leitura e, muito antes que eu soubesse que existiam historiadores, historiografia, documentos, arquivos ou métodos de pesquisa, começou a abrir janelas dentro de mim.
A curiosidade infantil acrescida de uma imaginação feroz me fazia boa ouvinte de histórias lidas e contadas pela minha mãe. Muitas vinham dos escritos sagrados e traziam um universo extraordinário, povoado por deuses, heróis, guerras, povos atravessando desertos, alimentos que caíam do céu e mares que se abriam para permitir a fuga dos oprimidos.
A História era assim épica, poderosa com interferências do Poder Divino.
O plano terrestre podia ser explicado a partir de uma hierarquia celeste e assim dois eram os mundos: o sagrado e o profano.
Alfabetizada, os mundos então lidos e conhecidos através dos olhos de minha mãe, ganham agora a possibilidade de ser lidos por mim.
Ofereciam portais para tempos, lugares, culturas e existências que eu jamais poderia experimentar diretamente, mas que, de alguma maneira, passavam também a me pertencer.
Possivelmente por isso eu tenha demorado a perceber que não era propriamente o passado que me fascinava.
O que eu queria era compreender por que estamos aqui. Queria saber por que vivemos desta maneira e não de outra; de onde vieram nossas crenças, cidades, costumes, conflitos, desigualdades, formas de amar, trabalhar, construir, dominar, resistir, criar e imaginar.
Queria entender por que algumas coisas atravessam séculos enquanto outras desaparecem, por que sociedades inteiras acreditaram em determinadas verdades e outras construíram formas completamente diferentes de explicar o mundo. E a História, em vez de me oferecer uma única resposta, fez algo muito mais precioso: ampliou o horizonte das perguntas.
Foi assim que ela começou a moldar quem eu sou.
Cada janela que abria oferecia uma perspectiva nova e, com ela, o mundo adquiria profundidade. A História me ensinava que nada simplesmente é: as coisas tornam-se. Possuem origens, circunstâncias, relações, permanências, rupturas e camadas anteriores que continuam agindo mesmo quando já não conseguimos percebê-las.
Aquilo que parecia natural revelava uma construção; o que parecia eterno mostrava-se produzido no tempo; o que parecia isolado encontrava conexões. Aos poucos fui compreendendo que a experiência humana se assenta sobre um chão feito por aqueles que vieram antes de nós, mas incessantemente modificado por aqueles que estão aqui agora.
É esse chão que a História me permite tocar.
Não um chão imóvel, depositário de um passado encerrado, mas uma superfície atravessada por tempos sobrepostos em camadas, experiências, conflitos, escolhas, criações, destruições, permanências e esquecimentos.
Caminhamos sobre ele sem perceber a quantidade de vidas que o precederam. Herdamos palavras que não inventamos, habitamos cidades que começaram antes de nosso nascimento ou de nossos antepassados, utilizamos conhecimentos acumulados por gerações, repetimos gestos cuja origem desconhecemos, carregamos crenças, afetos e preconceitos muito mais antigos do que nós ou de qualquer um à nossa volta.
A História foi me ensinando a reconhecer essas presenças e, ao fazê-lo, tornou o mundo infinitamente mais complexo, fascinante e multifacetado.
Na Universidade, aquele universo épico de minha infância, povoado por grandes heróis e acontecimentos extraordinários, começou a ganhar outras dimensões.
Os grandes personagens precisaram dividir o espaço com pessoas comuns, grupos, famílias, trabalhadores, mulheres, movimentos e comunidades cujos nomes talvez jamais fossem gravados em pedra, mas sem os quais nenhuma sociedade poderia ser compreendida.
Descobrir esses sujeitos foi também descobrir que a História não precisava olhar o mundo de cima. Podia aproximar-se das experiências humanas, escutar suas vozes, perceber seus conflitos e reconhecer a força das ações coletivas. Eram sujeitos históricos inseridos em diferentes tempos e contextos.
Foi pela História Oral que essa percepção ganhou corpo e emoção. Foi deste universo que surge a sensibilidade e o respeito às memórias, ouvidas sempre em atentas e longas conversas com depoentes disponíveis e prontos a registrar parte de sua história no grande macro-cosmo da existência dos movimentos sociais.
As pessoas chegavam para contar suas histórias, mas nunca traziam apenas palavras. Junto a estas memórias, muitos outros elementos chegavam e ajudavam a fazer ruído aos sons do passado: fotografias, cartas, objetos pessoais, anotações, recortes de jornais e pequenos papéis guardados durante décadas. Eram retalhos de existência que haviam sobrevivido aos acontecimentos que lhes deram origem e agora apareciam diante de mim carregados de sentidos, afetos e possibilidades.
Aquele encontro foi uma revelação. Uma vida deixava rastros. Uma fotografia esquecida numa gaveta, uma carta dobrada, um objeto aparentemente banal ou uma anotação feita às pressas podiam atravessar décadas e chegar às mãos de alguém que não estivera presente quando foram produzidos.
Comecei então a compreender que a História não estava apenas nas palavras escritas ou pronunciadas: estava também nas coisas, nos gestos, nas construções, nas imagens e nas relações que os seres humanos estabeleciam com tudo aquilo que produziam e escolhiam guardar como memórias e construções.
Mas estava igualmente naquilo que não havia permanecido.
Foi talvez uma das descobertas mais importantes que a História me proporcionou: aprender a perceber não apenas presenças, mas ausências. Há coisas que chegam até nós e outras que desaparecem; há vozes preservadas e outras silenciadas; há documentos cuidadosamente guardados e outros destruídos; há edifícios que atravessam séculos e paisagens inteiras apagadas.
Aquilo que falta também pode formular perguntas, desde que não confundamos ausência com inexistência. Desde então, olhar historicamente tornou-se para mim procurar construções, sinais, persistências, apagamentos e silêncios, sabendo que nenhum deles possui sentido fora das relações que os produziram. E aos poucos que nos chegam recebê-los como sobreviventes de um tempo. Muitos dels sofreram intempéries, devastações, perseguiçoes, destruições, abandono ou simplesmente foram deixados para trás.
Talvez por isso viajar tenha se tornado também uma experiência tão profundamente ligada à minha maneira de sentir a História. Percorrer castelos e cidades medievais nunca foi apenas visitar lugares antigos. Há algo difícil de traduzir quando caminhamos por uma rua aberta séculos antes de nosso nascimento ou pousamos a mão sobre uma pedra colocada ali por alguém que desapareceu há centenas ou milhares de anos. O espaço parece comprimir o tempo e, por um instante, aquilo que intelectualmente sabemos ganha uma dimensão quase física, mas também etérea.
Sempre me emocionou tocar portais de igrejas e catedrais imaginando quantas outras mãos os tocaram antes da minha. Degraus em pedra gastos pelo tempo e o pisar de tantos caminhantes! Durante séculos, peregrinos chegaram àquelas mesmas portas carregando medos, dores, esperanças, súplicas, gratidão. Não conheço seus nomes e provavelmente jamais conhecerei suas histórias, mas a pedra que tocaram permanece diante de mim, polida também pela passagem humana.
Da mesma maneira, moedas que circularam no tempo de Roma, muralhas atravessadas por gerações, pontes que uniram margens muito antes de nossa chegada, túmulos de cavaleiros acompanhados de seus cavalos, templos erguidos para divindades que já não possuem adoradores ou cidades cujas ruas ainda obedecem a desenhos produzidos por necessidades de outros séculos fazem-me sentir a presença quase palpável desse tempo que insiste em passar e, ao mesmo tempo, permanece em seus rastros.
Atravessar mares e continentes nos põe em uma viagem que não é apenas física: nos coloca o sentido do deslocamento nao apenas espacial e físico, mas também das distancias que separam eras e civilizações umas das outras.
Talvez nenhuma experiência tenha condensado essa sensação de maneira tão bela quanto a primeira vez em que vi uma fotografia surgir dentro de um laboratório.
Na penumbra, diante daqueles recipientes e líquidos utilizados no processo de revelação, havia inicialmente quase nada sobre o papel. Então, lentamente, alguma coisa começava a subir à superfície. Primeiro formas incertas; depois sombras e contornos; aos poucos, luzes, volumes, detalhes, até que uma imagem inteira se oferecia aos olhos onde, instantes antes, aparentemente não havia coisa alguma.
Eu sabia que havia ali química, física, técnica, domínio de materiais e processos. Mas havia também, para mim, um misto alquímico de experiências. A luz deixara um rastro invisível e aquele rastro podia ser revelado. Até hoje me parece difícil encontrar imagem mais próxima daquilo que a História significa para mim.
Também trabalhamos diante de vestígios que não entregam imediatamente tudo aquilo que podem conter. Aproximamos sinais, interrogamos documentos, buscamos contextos, estabelecemos conexões, confrontamos versões e procuramos produzir condições para que algumas formas se tornem visíveis. Mas revelar não significa inventar aquilo que desejamos encontrar. A imagem só pode subir ao papel porque alguma luz esteve antes diante da lente.
Da mesma forma, a interpretação histórica necessita de rastros, evidências, crítica e método para que a imaginação não ocupe o lugar daquilo que efetivamente podemos conhecer.
Foi assim que a História ampliou meus sentidos. Aprendi a ler o mundo pelas palavras, mas também pelas vozes, imagens, objetos, arquiteturas, técnicas, cidades, paisagens, permanências e ausências.
Um objeto deixou de ser somente um objeto; uma fotografia, apenas aquilo que mostra; uma cidade, o conjunto de edifícios que ocupa determinado espaço. Tudo começou a ganhar perspectiva, porque nada é bidimensional quando observado no tempo. Sob uma cidade existem outras cidades; dentro de uma palavra aparentemente contemporânea podem repousar séculos de disputas; uma paisagem aparentemente natural pode carregar inúmeras intervenções humanas; um costume conserva permanências cuja origem seus próprios praticantes talvez desconheçam.
A História abriu dentro de mim janelas para todas essas camadas e, provavelmente por isso, tenha me dado horizontes tão largos.
Ela oferece portais para diferentes mundos e permite transitar entre eras, civilizações, tempos, culturas e espaços; entre produções materiais, imateriais e espirituais: entre aquilo que os seres humanos construíram com as mãos e aquilo que imaginaram, acreditaram, temeram, desejaram ou sonharam. E nenhuma dessas dimensões existe isoladamente.
O humano não cabe dentro de fronteiras disciplinares, razão pela qual sempre me pareceu natural que a História se comunicasse com tantos outros saberes. Para compreender uma cidade, ela conversa com a geografia, a arquitetura, a economia e a sociologia; diante de um objeto, aproxima-se da arqueologia e da antropologia; diante das crenças, encontra a filosofia, a religião e as artes; diante das técnicas, precisa compreender também ciência e tecnologia.
A interdisciplinaridade não é um ornamento da História: nasce da própria complexidade de seu objeto, que é a experiência humana no Tempo.
E quanto mais compreendemos essa complexidade, mais difícil se torna aceitar explicações organizadas por pares opostos e respostas absolutas. O mundo histórico raramente cabe confortavelmente em certo ou errado, verdadeiro ou falso, progresso ou atraso, civilização ou barbárie, moderno ou arcaico. Essas categorias possuem, elas próprias, história. Foram formuladas em determinados contextos, serviram a projetos, legitimaram poderes, construíram preconceitos e também foram contestadas.
Isso não significa que tudo seja relativo ou que qualquer interpretação possua o mesmo valor. Ao contrário. A História exige evidências, crítica, método, demonstração e confronto. Mas justamente por isso ensina a duvidar da obviedade. Ensina a perguntar de onde veio determinada afirmação, quem a produziu, em que circunstâncias, a partir de quais interesses, apoiada em quais documentos e deixando quais vozes de fora. E poucas coisas me parecem tão libertadoras quanto descobrir que aquilo que nos apresentam como natural, inevitável ou eterno também possui uma história.
Foi assim que a História me ensinou a desconfiar de salvadores e libertadores providenciais. Nenhum indivíduo, por extraordinário que seja, existe fora de seu tempo e das relações que o constituíram. Mesmo aqueles que parecem alterar o curso dos acontecimentos só conseguem agir dentro de possibilidades históricas produzidas coletivamente. A História não diminui o indivíduo quando o retira do pedestal: ao contrário, devolve-lhe sua humanidade ao recolocá-lo entre outros seres humanos, conflitos, estruturas, ideias e circunstâncias.
Somos feitos de relações que começaram muito antes de nós. Falamos línguas que não inventamos, atravessamos pontes construídas por outros, lemos pensamentos de pessoas mortas há séculos, ouvimos músicas criadas em lugares onde talvez nunca estejamos, contemplamos obras nascidas de culturas que já desapareceram e utilizamos conhecimentos resultantes de uma longa acumulação humana. Nascemos no meio de histórias que já estavam acontecendo e, durante o breve intervalo que nos cabe, acrescentamos a elas alguma coisa de nós.
Talvez por isso minha paixão pela História seja, no fundo, inseparável de minha fascinação pelo Tempo.
Há muitos anos escrevi que o Tempo tece a trama de quem somos, vinculando-nos através das eras e dos espaços pelos quais trafegamos. Continuo sentindo sua presença dessa maneira. Ele é senhor das eras e árbitro de tudo porque não há poder, civilização, crença, tecnologia ou certeza que consiga deter sua passagem. O presente torna-se passado incessantemente, sem que possamos negociar com essa transformação, e aquilo que vivemos há dois minutos já pertence a um tempo ao qual não poderemos retornar.
O acontecimento é irreversível. Sua compreensão, não.
Podemos voltar a ele inúmeras vezes, formular outras perguntas, encontrar novos documentos, perceber relações que antes não enxergávamos, escutar vozes que permaneceram inaudíveis ou reconhecer como significativa uma ausência que anteriormente parecia vazia. O passado não muda para acomodar nossas interpretações: somos nós que ampliamos ou modificamos as perspectivas a partir das quais conseguimos interrogá-lo. Provavelmente por esta razão que a História nunca se encerra, embora aquilo que aconteceu não possa acontecer novamente.
Essa consciência do Tempo, longe de me prender ao passado, tornou-me profundamente comprometida com o presente. É aqui que estamos produzindo os rastros que poderão chegar ao futuro: é agora que decidimos o que conservar, o que destruir, o que registrar, aquilo a que daremos voz e o que deixaremos desaparecer. O passado nos pertence porque mora em nós, mas o futuro também começa nas escolhas que fazemos enquanto ainda são presente.
Acredito que tenha sido também por isso que, ao longo da vida, me interessei muito menos em acumular coisas do que em acumular experiências.
Voltas pelo mundo, encontros nascidos delas, amores vividos, caminhos compartilhados, mudanças de rumos e rotas, paisagens vistas pelas janelas durante meus deslocamentos; culturas que conheci, templos em que entrei, arquiteturas que contemplei, pontes que atravessei, muralhas que adentrei e ruas por onde caminhei.
Mares navegados, odores e sabores experimentados, pores-do-sol dourados, amanheceres de luz, luas suspensas sobre pensamentos distantes, tons de outono, sombras frondosas, céus estrelados de dois hemisférios.
Livros lidos, músicas ouvidas, quadros e esculturas contemplados, pensamentos arquitetados, linhas escritas, tramas tecidas e ligações estabelecidas.
Há muitos anos escrevi que não tivera tempo de acumular coisas porque estivera ocupada vivendo.
Hoje percebo quanto de História havia também naquela afirmação.
Todas essas experiências são formas de atravessar espaços e experimentar o Tempo. Quando minha mão toca uma pedra que outras mãos tocaram durante séculos, tempos distintos se encontram por um instante. Quando atravesso uma ponte antiga, estou no presente caminhando sobre algo que conseguiu atravessar inúmeros passados. Quando leio um livro escrito por alguém morto há centenas de anos, um pensamento produzido em outro tempo volta a existir naquele exato momento dentro de mim. Quando olho uma fotografia, a luz de um instante desaparecido volta a alcançar meus olhos.
É essa possibilidade de trânsito que continua me fascinando.
A História permite atravessar tempos sem abandonar inteiramente o nosso. Abre janelas dentro da alma e, por elas, deixa entrar outros mundos. Oferece portais para experiências que jamais poderíamos viver, mas que ampliam nossa capacidade de compreender aquela que nos coube viver. Alarga horizontes, desloca perspectivas e nos ensina que nenhuma janela, sozinha, contém toda a paisagem.
Talvez seja por isso que ela seja tão especial para mim.
Não escolhi apenas um ofício. Ao longo do tempo, esse ofício também me esculpiu. A História moldou a maneira como penso, como observo, como duvido, como estabeleço conexões e até como sinto os lugares pelos quais passo. Deu profundidade ao mundo porque me ensinou a procurar aquilo que existe por trás da superfície e, ao mesmo tempo, ensinou-me humildade diante de tudo aquilo que não consigo conhecer.
O ofício trouxe método, crítica, disciplina e ferramentas para aquela curiosidade que começara muito antes dele. A vocação talvez estivesse naquela menina que descobriu, através da leitura, que existiam outros tempos, outros mundos e outras maneiras de existir. Entre uma e outra, fui aprendendo que ser historiadora não significava encontrar uma resposta definitiva para a pergunta que primeiro me moveu — por que estamos aqui? —, mas adquirir instrumentos cada vez mais delicados para compreender a extraordinária diversidade das respostas que a humanidade construiu para ela.
E continuo querendo saber.
Continuo atravessando portais, olhando pelas janelas que a História abriu dentro de mim, tocando pedras, percorrendo cidades, lendo rastros, procurando permanências e interrogando ausências. Continuo maravilhada com a possibilidade de encontrar, nas coisas que sobreviveram ao Tempo, vestígios de homens e mulheres que estiveram aqui antes de nós.
Essa é, afinal, a razão mais íntima de minha paixão pela História.
Ela me deu horizontes para compreender o mundo e, ao fazê-lo, ajudou-me a compreender quem sou dentro dele.
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