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De invisíveis a pequenos imperadores: como inventamos, protegemos, prolongamos e abreviamos a infância

Por: Eliana Rezende Bethancourt

Anos atrás escrevi Infância Roubada. Naquele texto, olhava para crianças às quais se retirava brutalmente aquilo que deveria pertencer à infância: proteção, alimento, escola, segurança, brincar, sonho. Crianças submetidas à guerra, à fome, ao trabalho, à violência, à exploração e ao abandono.
Volto agora à infância por outro caminho. Não apenas para perguntar o que acontece quando uma sociedade rouba a infância de suas crianças, mas para fazer uma pergunta anterior: o que cada sociedade, em diferentes tempos, reconheceu como infância?

A pergunta importa porque a infância, tal como a concebemos hoje, não esteve sempre ali, pronta e imutável, esperando apenas que os adultos aprendessem a enxergá-la. As maneiras de perceber a criança, educá-la, protegê-la, amá-la, discipliná-la e definir seu lugar na família e na sociedade possuem história. Mudaram com as formas de organização familiar, com as relações de trabalho, com a escolarização, com os saberes médicos e pedagógicos, com as transformações econômicas e também com aquilo que cada época esperou de seus adultos.

Isso significa distinguir algo aparentemente óbvio, mas fundamental: crianças sempre existiram: infância, como categoria social, afetiva e cultural, assumiu significados diferentes ao longo do tempo. Nascer pequeno, depender dos adultos e atravessar etapas de desenvolvimento são condições humanas. O modo como uma sociedade interpreta essa condição, quanto tempo considera que ela dura, o que permite ou proíbe às crianças, quais responsabilidades lhes atribui e que proteção entende lhes dar pertence à História.

Philippe Ariès (1981) tornou-se referência incontornável justamente por chamar atenção para essa historicidade. Sua interpretação sobre a infância medieval foi posteriormente discutida, revista e matizada, sobretudo quando tomada de maneira excessivamente literal como demonstração de que sociedades anteriores à modernidade simplesmente “não possuíam infância”. A formulação é pobre diante de um problema muito mais interessante. Não se trata de imaginar que os adultos de outros séculos fossem incapazes de reconhecer a diferença entre uma criança e um adulto, mas de perceber que essa diferença não produzia necessariamente os mesmos lugares sociais, afetivos, educativos e familiares que hoje associamos à infância.

Durante muito tempo, as fronteiras entre os mundos infantil e adulto foram menos nítidas do que aquelas que a modernidade construiria. Crianças participavam precocemente de atividades, espaços, sociabilidades e trabalhos que posteriormente seriam considerados pertencentes ao universo dos adultos. Aprendiam observando e fazendo, conviviam com diferentes idades, ingressavam cedo no trabalho e estavam expostas a acontecimentos (violência, doença e morte), conversas e experiências das quais posteriormente se procuraria preservar o universo infantil.

A conhecida imagem da criança como um “adulto em miniatura” simplifica excessivamente esse processo, especialmente quando transformada numa fórmula para explicar séculos de experiências sociais muito distintas. Ainda assim, conserva uma pista importante: durante longo tempo não se reconheceu à infância o mesmo território social, afetivo e temporal que passaria a ocupar posteriormente. Não existia uma linha universal e permanente separando aquilo que pertencia às crianças daquilo que pertencia aos adultos. Essa linha foi sendo traçada historicamente.

À medida que essa linha foi sendo traçada, não mudou apenas a criança: mudaram também os adultos ao seu redor. Algo semelhante ocorre quando observamos a própria maternidade.

Elisabeth Badinter (1985) provocou forte debate ao historicizar aquilo que tantas sociedades preferiram apresentar como instinto: o amor materno. Sua questão não era negar que mães amassem seus filhos, mas interrogar a ideia de um sentimento materno invariável, biologicamente determinado e idêntico em qualquer tempo e sociedade. Entre gerar uma criança e corresponder ao modelo socialmente construído da “boa mãe” existe um universo de expectativas que também possui história.

Isso permite ampliar a questão. Não apenas a maternidade, mas aquilo que hoje chamamos de parentalidade foi adquirindo exigências, responsabilidades e significados próprios. O que se espera de uma mãe ou de um pai, quanto devem participar da vida dos filhos, que sacrifícios lhes cabem, quanto tempo devem dedicar-lhes, até onde devem proteger, vigiar, estimular, orientar e proporcionar são expectativas socialmente produzidas. Também inventamos historicamente maneiras de ser mãe e de ser pai.

Essa constatação é particularmente importante porque impede duas simplificações opostas. A primeira seria imaginar um passado harmonioso no qual famílias sabiam naturalmente educar seus filhos. A segunda, considerar naturais e universais as enormes expectativas que hoje depositamos sobre pais e mães. Nem uma coisa nem outra. Famílias são também formações históricas: mudam suas relações de autoridade, afeto, dependência, convivência e responsabilidade.

Se infância e parentalidade possuem história, então nossa maneira contemporânea de colocar a criança no centro da família também precisa ser interrogada. Porque uma das transformações mais profundas desse longo percurso não foi apenas aprendermos a proteger melhor nossas crianças. Foi começarmos progressivamente a organizar parte importante do mundo adulto ao redor delas.

A criança que precisava ser protegida

Os séculos XIX e XX consolidaram progressivamente um território próprio para a infância. Escolarização, pediatria, psicologia, pedagogia, legislação protetiva e reconhecimento de direitos contribuíram para separar etapas da vida que anteriormente possuíam fronteiras muito mais porosas. A criança ganhou espaços, objetos, conhecimentos especializados, instituições e profissionais dedicados especificamente a ela. Passou a existir uma arquitetura social da infância: lugares onde deveria estar, atividades consideradas adequadas à sua idade, saberes destinados a compreendê-la e adultos encarregados de educá-la, tratá-la, protegê-la e acompanhar seu desenvolvimento.

Retirar crianças das fábricas, limitar o trabalho infantil, ampliar a escolarização, reconhecer direitos, combater violências e compreender necessidades próprias do desenvolvimento infantil constituíram processos fundamentais. A infância deixou progressivamente de ser apenas uma passagem imperfeita para a vida adulta e adquiriu valor em si mesma. Brincar, estudar, crescer em segurança, ser cuidado e não ser submetido precocemente às obrigações do mundo adulto passaram a ser reconhecidos não como concessões, mas como condições próprias dessa etapa da vida.

Esse processo também modificou profundamente a família. Ao adquirir um território próprio, a infância passou a reorganizar o mundo dos adultos. A criança que antes precisava adaptar-se muito cedo às rotinas familiares tornou-se progressivamente uma das razões pelas quais essas rotinas são organizadas. Escolhem-se escolas, bairros, horários, viagens, formas de lazer e projetos econômicos levando em conta aquilo que se considera melhor para os filhos. Não se trata simplesmente de afirmar que pais contemporâneos amam mais seus filhos do que os de outras épocas. A própria arquitetura afetiva, material e cotidiana da família foi sendo reorganizada em torno da infância.

E, quando um filho se transforma também em projeto, seu futuro passa a concentrar enorme investimento. Investimos nele expectativas, recursos, tempo, ansiedade e culpa. Seu desempenho escolar, suas habilidades, suas oportunidades e, posteriormente, seu êxito profissional podem ser experimentados pelos adultos quase como medidas da própria competência parental. Não basta criar. É preciso preparar. Não basta oferecer escola. É preciso escolher a melhor possível. Não basta permitir que descubra interesses. É preciso estimular talentos, oferecer experiências, antecipar oportunidades.

A proteção começa, assim, a conviver com uma ideia muito mais exigente de parentalidade. Ser bom pai ou boa mãe passa a significar não apenas alimentar, proteger e educar, mas acompanhar, estimular, proporcionar experiências, favorecer talentos, vigiar riscos, administrar emoções, evitar traumas, oferecer oportunidades e, cada vez mais, garantir felicidade. É uma tarefa impossível: nenhum adulto pode garantir a felicidade de outro ser humano. Ainda assim, quando a felicidade dos filhos começa a ser percebida como responsabilidade parental, a tristeza, a decepção, o fracasso e a frustração podem adquirir um significado novo. Deixam de ser apenas experiências inevitáveis da existência e passam a ser percebidos, muitas vezes, como sinais de que alguma coisa falhou no cuidado.

É justamente nesse ponto que proteção pode começar a confundir-se com impedimento da frustração. Existe uma diferença fundamental entre proteger uma criança daquilo que ela ainda não possui condições para enfrentar e procurar eliminar de seu caminho qualquer experiência desagradável. Protegê-la da violência, do abandono, da exploração e de riscos incompatíveis com sua idade é responsabilidade dos adultos e da sociedade. Impedir que espere, perca, erre, seja contrariada, descubra que não pode ter alguma coisa ou perceba que sua vontade encontra a vontade de outras pessoas pertence a outra ordem.

Limite não é abandono. Frustração não é violência. Contrariedade não é trauma. São experiências por meio das quais também se aprende que existe um mundo para além do próprio desejo. E talvez uma das contradições mais curiosas da parentalidade contemporânea esteja justamente aí: quanto mais nos empenhamos em preparar as crianças para o futuro, mais podemos ser tentados a remover do presente algumas das experiências necessárias para que consigam enfrentá-lo. Intervimos para evitar conflitos, negociamos aquilo que poderia simplesmente ser estabelecido, antecipamos dificuldades, solucionamos problemas antes que elas próprias tentem fazê-lo.

Uma criança protegida da violência precisa ser defendida. Uma criança protegida de qualquer contrariedade aprende outra coisa: que o mundo deveria ajustar-se aos seus desejos. E o mundo, evidentemente, não fará isso.

Quando o mercado descobriu a infância

O capitalismo compreendeu rapidamente o potencial dessa centralidade.

À medida que a infância ganhou contornos próprios, ganhou também objetos próprios. Roupas, brinquedos, livros, alimentos, móveis, espaços de lazer e produtos concebidos especificamente para crianças passaram a compor um universo material que acompanhava a própria especialização da infância. Se existia uma idade da vida com necessidades, desejos e características particulares, existia também um mercado capaz de produzir para ela.

Mas uma transformação ainda mais importante aconteceria quando a criança deixasse de ser apenas alguém para quem os adultos compravam determinados produtos e passasse a ser reconhecida como alguém capaz de desejá-los, escolhê-los, pedi-los e interferir nas decisões de compra dos adultos. A criança tornou-se destinatária de uma indústria própria e, progressivamente, agente capaz de participar das decisões de consumo de toda a família.

Não é necessário possuir renda para ser formado como consumidor. Muito antes de poder comprar, a criança aprende a desejar, reconhecer marcas, distinguir produtos, comparar, escolher, pedir e insistir. Aprende também que boa parte das relações com o mundo material se organiza por meio de escolhas entre coisas que podem ser adquiridas.

Basta observar uma cena aparentemente banal: supermercados que oferecem pequenos carrinhos de compras para crianças. A miniatura parece apenas divertida, mas reproduz, em escala infantil, um ritual adulto. A criança empurra seu carrinho pelos corredores, observa prateleiras, escolhe produtos, coloca-os dentro dele e acompanha os adultos até o caixa. O supermercado deixa de ser apenas o lugar ao qual foi levada enquanto alguém faz compras. Oferece-lhe uma experiência própria de compra.

É justamente isso que torna o pequeno carrinho tão revelador: ele não apenas entretém a criança enquanto os adultos fazem suas compras; transforma a compra em brincadeira e a brincadeira em aprendizagem do consumo. O gesto adulto é reproduzido em miniatura muito antes que aquela criança possua dinheiro próprio.

O mercado descobriu algo particularmente poderoso: quem deseja e quem paga não precisam ser a mesma pessoa. A criança pode não possuir renda e, ainda assim, participar intensamente de sua destinação.

Alimentos, roupas, brinquedos e material escolar foram apenas o começo. Crianças passaram a participar das escolhas de restaurantes, viagens, hotéis, automóveis, aparelhos eletrônicos, entretenimento e destinos familiares. A pergunta “o que as crianças vão achar?” tornou-se perfeitamente plausível em decisões de consumo que, em princípio, não dizem respeito apenas a elas.

E isso modifica o próprio lugar econômico da infância. A criança não é somente consumidora futura, preparada para comprar quando chegar à vida adulta. Ela possui valor mercadológico no presente, porque deseja, influencia, pede, reconhece e participa das escolhas daqueles que dispõem dos recursos.

O mercado não criou sozinho essa centralidade da criança. Soube, porém, explorá-la extraordinariamente bem. Aprendeu a falar diretamente com ela, a produzir desejos específicos e, sobretudo, a transformar sua influência sobre os adultos em poder de consumo.

Mas existe outra dimensão dessa relação que não se explica apenas pelo mercado. Quanto mais os adultos passaram a medir sua capacidade de cuidar também pela capacidade de proporcionar, mais tênue se tornou a fronteira entre afeto e consumo. “Dar aos filhos aquilo que não tive” pode significar oferecer educação, segurança e oportunidades que gerações anteriores não possuíram. Mas pode também converter-se numa sucessão quase ilimitada de coisas, experiências e satisfações destinadas a demonstrar materialmente aquilo que se sente afetivamente.

O consumo oferece uma vantagem particularmente sedutora: ele materializa o cuidado. É possível ver o brinquedo, o aparelho, a viagem, a roupa, o curso, a festa. O tempo, ao contrário, não cabe numa embalagem e tornou-se justamente um dos bens mais escassos em muitas famílias.

Pais que trabalham muitas horas conhecem a culpa da ausência. Presentes podem ocupar o lugar do tempo que faltou. Concessões evitam conflitos justamente quando as poucas horas disponíveis para convivência parecem preciosas demais para serem gastas com negativas. Depois de um dia inteiro distante, dizer “não” pode custar emocionalmente mais ao adulto do que comprar aquilo que foi pedido.

O “não” custa: o “sim”, muitas vezes, pode ser comprado. Forma-se então uma negociação curiosa em que pais subornam e são subornados: subornam quando procuram converter ausência, culpa ou conflito em concessão; são subornados quando descobrem que determinadas concessões compram também aquilo de que necessitam naquele momento — silêncio, tranquilidade, obediência provisória, algumas horas sem disputa.

Em outros momentos, podia ser um brinquedo, uma guloseima, uma roupa. Hoje pode ser também o smartphone entregue para que a criança se distraia durante a refeição, o tablet que garante algumas horas de sossego ou o acesso irrestrito a entretenimento capaz de ocupar indefinidamente sua atenção.

É justamente aqui que consumo, culpa e tecnologia começam a formar um mesmo circuito. Mais adiante, quando chegarmos às “babás eletrônicas”, veremos que o objeto comprado para entreter a criança já não apenas ocupa seu tempo: passa também a disputar sua atenção.

Nada disso significa que as crianças tenham nascido mais manipuladoras do que as de outras épocas. Tampouco que os pais contemporâneos sejam simplesmente mais fracos ou irresponsáveis. Uma interpretação assim reduziria um processo social complexo a defeitos individuais. As crianças apenas aprendem muito cedo as regras do mundo que lhes apresentamos.

E, se lhes ensinamos desde cedo que desejo pode converter-se rapidamente em aquisição, que frustração pode ser abreviada por uma concessão e que afeto pode adquirir expressão material, não deveria nos surpreender que aprendam também a negociar dentro dessa gramática. O pequeno consumidor não nasce sabendo consumir. Também ele é educado.

Pequenos imperadores

É justamente nesse terreno que encontramos uma das figuras mais contraditórias da família contemporânea: o chamado “pequeno imperador”.

A expressão não nasceu neste texto. Circula há algum tempo para caracterizar crianças que ocupam posição de forte centralidade na família e que são frequentemente descritas como exigentes, autoritárias, dominadoras ou pouco habituadas à frustração. Chegou-se mesmo a falar em “síndrome do pequeno imperador”, expressão que prefiro não adotar. Não me interessa transformar uma configuração social e educativa em diagnóstico, muito menos procurar nas próprias crianças a responsabilidade por terem chegado a esse lugar.

Interessa-me outra coisa: que relações familiares são necessárias para que uma criança seja colocada nessa posição?

A imagem do imperador é particularmente sugestiva porque nenhum imperador existe sozinho. Para que ocupe o centro, é preciso que outros reconheçam sua centralidade, atendam suas demandas, negociem permanentemente com seus desejos e reorganizem ao redor dele parte importante da vida cotidiana.

Escolhe o que comer, o que assistir, onde sentar, qual programa familiar aceitará, o que deseja ganhar. Restaurantes são escolhidos porque possuem aquilo que a criança come; viagens precisam oferecer aquilo que a entretenha; horários são ajustados; cardápios modificados; programas abandonados diante da recusa. Pequenas decisões cotidianas, tomadas isoladamente, parecem irrelevantes. Reunidas, porém, podem revelar uma transformação mais profunda nas relações de autoridade dentro da família: adultos negociam incessantemente aquilo que outras gerações simplesmente determinavam.

E é necessário cuidado justamente aqui. Reconhecer uma criança como sujeito, ouvi-la, respeitar sua individualidade e abandonar modelos educativos assentados no medo, na humilhação e na violência constitui um avanço incomparável. Crianças não precisam retornar à condição de seres silenciosos cuja única resposta possível diante de um adulto seja obedecer. Mas existe uma distância considerável entre abandonar o autoritarismo e abandonar a autoridade.

A autoridade adulta não deveria existir porque o adulto possui mais valor, merece obediência cega ou tem o direito de impor arbitrariamente sua vontade. Existe porque cabe a ele uma responsabilidade que a criança ainda não pode assumir integralmente: perceber consequências, avaliar riscos, estabelecer limites, sustentar decisões e suportar inclusive o desagrado que essas decisões possam provocar. Ouvir uma criança não significa transferir a ela a responsabilidade de estabelecer os próprios limites de que ainda necessita.

Talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade esteja justamente em suportar que o filho fique descontente conosco. Dizer “não” significa aceitar a raiva, o choro, a insistência, a acusação momentânea de injustiça — e permanecer adulto diante disso. Quando qualquer sofrimento da criança é interpretado como prova de falha parental, torna-se tentador retirar o limite para eliminar também o desconforto de quem o estabeleceu.

Nesse sentido, o problema não é apenas que algumas crianças não tolerem frustração. Muitas vezes os próprios adultos têm dificuldade de tolerar a frustração da criança. E então chegamos ao pequeno imperador: ele não nasce imperador; é coroado. Sua corte é formada por adultos que desejam protegê-lo, fazê-lo feliz, evitar traumas, compensar ausências e proporcionar tudo aquilo que acreditam não ter recebido. Pais, avós e outros adultos podem participar dessa corte, multiplicando cuidados, presentes, expectativas e concessões em torno de uma criança cuja existência concentra uma parcela extraordinária do investimento afetivo familiar.

Quanto mais difícil se torna sustentar o limite, maior o poder de negociação daquele que aprende que insistir funciona. Chorar mais, pedir novamente, recusar-se a comer, interromper, fazer uma cena ou simplesmente esperar que os adultos cedam podem converter-se em estratégias eficazes não porque a criança tenha concebido algum plano perverso de dominação familiar, mas porque comportamentos que produzem resultados tendem a ser repetidos. A criança aprende rapidamente onde estão as fronteiras e aprende também quando elas se movem.

A dificuldade de frustrá-la pode então produzir exatamente aquilo que se pretendia evitar: sujeitos pouco preparados para conviver com limites, espera, alteridade e impossibilidade. Afinal, crescer também significa descobrir que desejar alguma coisa não cria automaticamente o direito de obtê-la; que outras pessoas possuem necessidades igualmente legítimas; que existem regras que não foram criadas para nos agradar; e que a existência compartilhada exige renúncias, negociações e espera.

É nesse ponto que aparece uma contradição ainda maior. Enquanto conferimos à criança enorme poder de decisão dentro de determinadas famílias, prolongamos sua dependência.

Filhos permanecem por mais tempo sob tutela econômica, afetiva e decisória dos adultos. Decisões são acompanhadas, riscos controlados, caminhos supervisionados e obstáculos frequentemente removidos antes mesmo que precisem ser enfrentados. Pais telefonam, resolvem, explicam, negociam, intercedem. Aquilo que começou como proteção pode continuar funcionando quando já deveria estar cedendo lugar à autonomia.

Cria-se, então, uma combinação curiosa: muito poder e pouca responsabilidade. A criança ou o jovem pode possuir considerável poder para interferir nas decisões familiares e, simultaneamente, encontrar poucas ocasiões em que precise responder integralmente pelas consequências das próprias escolhas. A autonomia é desejada como liberdade, mas nem sempre exercitada como responsabilidade.

E, enquanto prolongamos a dependência em algumas dimensões, fazemos precisamente o contrário em outras: adultizamos precocemente essas mesmas crianças. É daí que nasce o paradoxo que talvez melhor caracterize nossa relação contemporânea com a infância: queremos preservá-la por mais tempo e, simultaneamente, introduzimos cada vez mais cedo as crianças em experiências, desejos, linguagens e universos que pertenciam ao mundo adulto.

A infância prolongada e a infância abreviada

Adiamos responsabilidades, mas antecipamos o consumo. Prolongamos a dependência material e afetiva, mas oferecemos cada vez mais cedo acesso a repertórios, linguagens, imagens e experiências antes reservados aos adultos. Protegemos de determinados riscos enquanto abrimos, por meio de uma tela, portas para um mundo praticamente ilimitado. Preocupamo-nos com onde estão fisicamente enquanto sabemos cada vez menos sobre os lugares digitais que frequentam.

A contradição é profunda. Crianças podem permanecer por muito mais tempo dependentes dos adultos para resolver questões cotidianas e, simultaneamente, circular desde muito pequenas por ambientes digitais aos quais chegam informações, conflitos, publicidade, padrões de comportamento e representações do mundo para os quais nenhuma proteção doméstica consegue estabelecer fronteiras muito claras.

Adultizar precocemente não significa apenas vestir crianças como adultos ou permitir-lhes acesso a determinados conteúdos. Significa também introduzi-las cedo demais nas lógicas adultas do desempenho, da aparência, da escolha permanente, do consumo, da exposição e da comparação. Perguntamos muito cedo o que querem ser, no que são melhores, que atividade desejam fazer, que talento precisam desenvolver. Fotografamos, registramos, exibimos desempenhos. A infância passa a ser acompanhada por uma curiosa pressão para produzir sinais do adulto bem-sucedido que aquela criança deverá um dia tornar-se.

Ao mesmo tempo, adiamos experiências elementares de autonomia. Levamos e buscamos, supervisionamos, lembramos compromissos, resolvemos conflitos, antecipamos riscos e oferecemos respostas antes mesmo que determinadas perguntas tenham tempo de amadurecer. Antecipamos o adulto como projeto e adiamos o adulto como responsabilidade.

É nessa contradição que a tecnologia encontra um terreno particularmente fértil. Em Geração TouchScreen, escrevi sobre crianças muito pequenas que já manejavam telas com uma intimidade que surpreendia os adultos. Também me interessava ali a maneira como dispositivos tecnológicos se transformavam em aliados de pais exaustos, ocupados ou simplesmente necessitados de algum tempo de silêncio. As antigas babás eletrônicas ficaram muito mais sofisticadas.

A televisão entretinha, mas sua programação possuía começo, fim e uma direção predominantemente única. Tablets e smartphones acompanham, respondem, recomendam, recompensam, aprendem preferências e oferecem continuamente um próximo estímulo. A criança não precisa sequer procurá-lo: ele chega, e chega adaptado a ela.

Esse detalhe modifica profundamente a relação. Já não se trata apenas de uma criança diante de uma tela. Do outro lado existem sistemas capazes de registrar escolhas, perceber permanências, reconhecer preferências e oferecer novos estímulos destinados precisamente a prolongar aquela permanência. Aquilo que para a família pode funcionar como algumas horas de entretenimento ou tranquilidade participa também de uma economia em que a atenção se tornou um recurso disputado.

E assim produzimos uma situação quase desconcertante: nunca protegemos tanto determinadas crianças do mundo e, simultaneamente, nunca deixamos tantas horas de suas vidas entregues a um mundo que não controlamos. Chamamos isso, muitas vezes, de autonomia. Mas autonomia pressupõe condições para escolher e, sobretudo, aprender a responder pelas escolhas feitas. Entregar uma criança a mecanismos concebidos precisamente para disputar e reter sua atenção dificilmente pode ser confundido com liberdade.

Existe ainda outra perda menos visível: o tempo da infância, antes ocupado também pelo tédio, pela invenção, pelo brincar sem roteiro, pela observação e pela descoberta, torna-se progressivamente preenchido. Quando não está na escola, está no curso. Quando não está no curso, está diante da tela. Quando não está consumindo conteúdo, está sendo estimulada a consumir alguma outra coisa. Organizamos a infância como organizamos o mundo adulto: preenchendo seus intervalos.

O tédio tornou-se quase um problema a ser solucionado. Diante de uma criança que diz “não tenho nada para fazer”, a resposta adulta frequentemente é oferecer alguma coisa: uma atividade, um brinquedo, uma tela, um passeio, um conteúdo. Pouco espaço resta para aquele tempo inicialmente incômodo em que nada foi preparado por alguém e, justamente por isso, alguma coisa precisa ser inventada.

Brincar sem finalidade também exige esse tempo. Uma caixa pode tornar-se casa, nave, esconderijo; um quintal pode adquirir geografias que nenhum adulto projetou; objetos podem receber funções para as quais jamais foram produzidos. A imaginação trabalha precisamente porque alguma coisa falta e precisa ser criada. Protegemos a criança até mesmo do vazio e talvez tenhamos esquecido que era justamente dentro dele que muitas infâncias inventavam mundos.

O problema, evidentemente, não termina quando a infância termina. Ou, mais precisamente, quando supomos que terminou. Uma geração criada sob intensa centralidade familiar começa a chegar aos espaços em que essa centralidade simplesmente não pode ser reproduzida. A universidade, a vida pública e, especialmente, o mundo do trabalho colocam diante de cada um aquilo que a organização doméstica conseguiu muitas vezes adiar: o outro.

Penso particularmente no crescente universo dos filhos únicos. Não porque a ausência de irmãos determine comportamentos — seria simplista atribuir à configuração familiar aquilo que resulta de processos sociais muito mais complexos —, mas porque ela torna especialmente visível outra transformação: famílias menores podem concentrar em menos crianças parcelas muito grandes de investimento material, afetivo e de expectativas.

Um único filho pode reunir não apenas a atenção de pai e mãe, mas também a de avós e outros adultos. Projetos, esperanças, oportunidades, receios e recursos que em famílias numerosas necessariamente se distribuíam entre vários filhos podem concentrar-se sobre um ou dois. Não é a condição de filho único que produz o pequeno imperador. É a concentração que nos interessa observar, e ela ultrapassa os filhos únicos propriamente ditos.

Multiplicaram-se crianças criadas como o centro de um pequeno sistema familiar de expectativas, investimentos, negociações e concessões. Podem ter irmãos e, ainda assim, crescer sob uma cultura familiar que reconhece cada filho como centro de um projeto individual cuidadosamente acompanhado. Cada uma delas foi, em alguma medida, única. E agora começam a se encontrar. É uma imagem que me provoca: um exército de únicos descobrindo que o mundo está cheio de outros únicos.

O encontro é inevitável porque aquilo que funcionava dentro de um pequeno universo afetivo não pode ser simplesmente reproduzido no espaço compartilhado. No interior da família era possível reorganizar horários, refeições, férias, compras e programas em torno de uma criança. Era possível antecipar suas necessidades, conhecer suas preferências, evitar determinadas situações e negociar continuamente.

No mundo compartilhado, porém, seu desejo encontra o desejo alheio; sua urgência encontra outra urgência; sua vaidade encontra outras vaidades; sua necessidade de reconhecimento encontra pessoas igualmente desejosas de serem reconhecidas. Todos chegam como protagonistas de suas próprias histórias e descobrem que, na história dos outros, são personagens secundários. Nenhuma organização social consegue funcionar se todos tiverem sido ensinados a ocupar permanentemente o centro.

O mercado de trabalho talvez seja um dos lugares em que esse encontro se torne mais evidente. Ali reaparecem palavras que determinadas formas contemporâneas de parentalidade procuraram suavizar: não, espere, limite, hierarquia, prazo, erro, consequência. Surge também algo ainda mais difícil: fazer aquilo de que não se gosta, conviver com quem não se escolheu, reconhecer que outra pessoa pode saber mais, receber crítica sem convertê-la imediatamente em ofensa e compreender que frustração não equivale necessariamente a violência.

Mas eu teria cuidado para não atribuir ao trabalho uma espécie de função corretiva que antes caberia à família. O mercado de trabalho contemporâneo também cultiva suas próprias promessas de satisfação permanente, reconhecimento, propósito, flexibilidade e realização pessoal. Talvez por isso o encontro seja ainda mais complexo: chegam a ele indivíduos ensinados a procurar singularidade e organizações que, durante anos, aprenderam a prometer exatamente isso.

Não me interessa transformar essa geração em caricatura. Cada geração costuma acusar a seguinte de ser menos resistente, menos preparada ou mais indulgente do que ela própria foi. Essa ladainha é antiga e historicamente pouco produtiva. Tampouco me interessa transformar sofrimento em fraqueza ou reivindicação legítima em incapacidade de suportar limites.

O que me interessa é outra coisa: o que acontece quando formas de educação construídas para proteger a individualidade precisam preparar indivíduos para viver entre iguais? A pergunta ultrapassa filhos únicos, telas, consumo ou mercado de trabalho. Ela diz respeito à própria formação para a alteridade. Crescer significa descobrir progressivamente que o outro não existe para confirmar nossos desejos; que convivência produz atrito; que liberdade encontra limites na liberdade alheia; que nem toda espera constitui desrespeito, nem toda recusa significa rejeição.

Porque uma sociedade não é uma família ampliada. E talvez seja justamente no encontro entre tantos “únicos” que reapareça aquilo que nenhuma infância, por mais protegida que seja, deveria deixar de aprender:

o mundo também pertence aos outros.

Afinal, o que fizemos com a infância?

Não há razão para idealizar o passado. As crianças de outras épocas não eram necessariamente mais felizes, livres ou bem educadas. Foram submetidas a violências hoje intoleráveis, trabalharam precocemente, morreram em proporções aterradoras, tiveram direitos negados e, muitas vezes, pouca possibilidade de serem ouvidas. A autoridade adulta podia assumir formas brutais, a disciplina confundia-se frequentemente com violência e a própria sobrevivência infantil esteve, durante séculos, submetida a condições que nenhuma nostalgia deveria transformar em virtude.

A história não oferece uma infância perdida à qual possamos simplesmente retornar. E isso importa porque toda crítica ao presente corre o risco de fabricar um passado que nunca existiu. Não precisamos escolher entre a criança silenciosa e submetida de outros tempos e a criança transformada em centro absoluto do universo familiar. Não precisamos recuperar o autoritarismo para reconhecer a necessidade da autoridade, abandonar direitos para restabelecer limites ou defender antigas formas de educação para perguntar o que as atuais estão produzindo.

O que a História oferece é algo mais importante: a possibilidade de compreender que aquilo que construímos também pode ser interrogado.

Construímos uma sociedade que aprendeu progressivamente a reconhecer a infância como uma etapa particular da existência. Retiramos crianças de muitos espaços de exploração, ampliamos sua escolarização, reconhecemos direitos, criamos instituições destinadas à sua proteção e aprendemos a ouvi-las como sujeitos. Passamos a reconhecer que brincar importa, que desenvolvimento exige tempo, que violência não educa e que uma criança não deveria carregar precocemente todas as responsabilidades do mundo adulto.

Mas, enquanto construíamos esse território protegido, fizemos também outra coisa: colocamos a criança progressivamente no centro de uma enorme arquitetura de expectativas. Esperamos que seja feliz, estimulada, talentosa, segura, realizada. Planejamos seu futuro antes que consiga imaginá-lo. Escolhemos escolas, cursos, experiências, viagens, atividades e oportunidades. Procuramos afastar riscos, antecipar dificuldades e, muitas vezes, retirar obstáculos. Desejamos que desenvolva autonomia, mas temos dificuldade de permitir as experiências pelas quais a autonomia se constrói.

Queremos que escolha, mas frequentemente lhe oferecemos apenas escolhas previamente organizadas; queremos que seja independente, mas corremos para ajudá-la antes que precise descobrir como resolver; queremos poupá-la da dor e podemos terminar poupando-a também de algumas experiências fundamentais: esperar, perder, errar, entediar-se, insistir, desistir, começar novamente, ouvir um “não”, perceber que outra pessoa chegou primeiro, descobrir que nem tudo foi feito para ela.

Ao mesmo tempo, construímos famílias pressionadas pela escassez de tempo e atravessadas pela culpa. Mercados aprenderam a transformar desejo infantil em decisão econômica. Tecnologias ocuparam praticamente todos os intervalos que ainda restavam e transformaram atenção em recurso disputado. Aquilo que chamamos de proteção passou a conviver com formas de exposição que gerações anteriores sequer poderiam imaginar.

Por isso, a criança contemporânea carrega contradições tão profundas. Pode exercer enorme poder dentro da família e continuar profundamente dependente dela; dominar dispositivos que seus avós mal compreendem e não saber o que fazer quando alguém simplesmente lhe diz “não”; ser consultada sobre quase todas as escolhas domésticas e ter poucas ocasiões para responder integralmente pelas próprias escolhas; circular com extraordinária habilidade por ambientes digitais e possuir pouca autonomia para circular sozinha pelo mundo físico. Pode ainda possuir brinquedos, cursos, experiências, conteúdos e estímulos em quantidade inimaginável para outras gerações e, mesmo assim, dispor de pouco daquele tempo aparentemente inútil no qual uma criança inventa alguma coisa simplesmente porque não havia nada preparado para ela.

E talvez seja justamente aqui que a pergunta precise mudar. Durante muito tempo, lutamos para que a infância tivesse um lugar. Talvez agora precisemos perguntar que lugar construímos para ela.

Um lugar protegido, certamente, mas também vigiado; valorizado, mas carregado de expectativas; escutado, mas permanentemente estimulado; cercado de possibilidades, mas também de mercados; prolongado em sua dependência e abreviado em sua experiência. Nunca estivemos tão atentos às crianças e, paradoxalmente, podemos estar deixando escapar aquilo que significa ser criança.

Anos atrás, em Infância Roubada, terminei perguntando por onde teria voado o sonho roubado de tantas crianças. Eram infâncias subtraídas pela guerra, pela fome, pela violência, pelo trabalho, pela exploração, pelo abandono. Continuam existindo. Seria obsceno esquecê-las apenas porque outras crianças vivem cercadas de proteção, objetos e cuidados.

Mas talvez existam maneiras diferentes de abreviar uma infância. Algumas são brutais e imediatamente reconhecíveis. Outras podem nascer precisamente no interior de nossas melhores intenções: quando preenchemos todo o tempo, antecipamos todas as experiências, eliminamos toda espera, transformamos todo desejo em escolha de consumo e confundimos proteger com impedir que a criança encontre gradualmente o mundo.

Não são formas equivalentes de privação. Não devemos colocá-las no mesmo plano. Mas ambas permitem fazer uma pergunta sobre aquilo que uma sociedade reserva às suas crianças.

Hoje, portanto, eu faria outra pergunta: depois de séculos aprendendo a enxergar a infância, será que começamos novamente a perdê-la de vista?

Não porque tenhamos voltado a ignorar as crianças. Ao contrário. Nós as vemos o tempo inteiro: observamos, fotografamos, acompanhamos, protegemos, estimulamos, consultamos, transportamos, presenteamos, monitoramos, projetamos. Organizamos agendas, casas, mercados e tecnologias ao redor delas.

E talvez seja precisamente por isso que a pergunta se tornou necessária. Porque colocamo-las tão intensamente no centro de nossos afetos, culpas, expectativas, medos e mercados que corremos o risco de esquecer aquilo que tanto lutamos para lhes assegurar — o direito de serem crianças.

*Bibliografia de Referência:

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Tradução de Dora Flaksman. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

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