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O ovo da serpente: Arqueologia de uma perplexidade – Rastros e vestígios de como se sedimentou uma sociedade radicalizada

Por: Eliana Rezende Bethancourt

Como historiadora, sempre tive dificuldade em analisar acontecimentos ainda quentes. Prefiro a passagem do tempo. Não porque ela apazigue os acontecimentos ou lhes retire a urgência, mas porque permite observar como se encadeiam, como determinados sedimentos se depositam sobre outros e, pouco a pouco, formam camadas, espessuras e texturas que o presente, envolto em sua própria névoa, dificilmente deixa perceber.

A inquietação, no entanto, nasce quase sempre no presente. Alguma coisa incomoda, perturba, parece fora do lugar e nos obriga a perguntar como chegamos até ali. É então que o historiador começa a escavar. Volta aos vestígios, compara, lê, relê, aproxima acontecimentos que pareciam dispersos, procura continuidades, reconhece rupturas. O passado fornece a matéria-prima: a interpretação procura construir alguma inteligibilidade para aquilo que, enquanto acontece, muitas vezes se apresenta apenas como névoa e opacidade.

Minha inquietação agora nasceu justamente daquilo que vejo na cena política brasileira. Não me espanta propriamente que personagens conhecidos pelas redes sociais cheguem ao Parlamento: ampliar as possibilidades de representação faz parte da própria democracia. O que me perturba é outra coisa: perceber que o ruído, a agressividade, a incapacidade de dialogar, o desprezo pela diferença e a disposição permanente para fabricar inimigos parecem ter se transformado, para parte do eleitorado, em qualidades desejáveis num representante.

Pessoas que construíram notoriedade gritando, insultando, provocando ou reduzindo problemas complexos a meia dúzia de palavras conseguem converter audiência em votos e chegam às instituições carregando consigo a mesma linguagem que as tornou conhecidas.

Foi daí que nasceu a pergunta que me fez voltar aos meus próprios escritos: que sociedade é essa? Não pergunto apenas quem são esses personagens, mas quem são aqueles que desejam ser representados por eles. Em que momento a grosseria pôde ser confundida com autenticidade, a crueldade com coragem e a recusa da negociação com firmeza? O que aconteceu para que o adversário político, necessário à própria existência da democracia, pudesse ser percebido como alguém a ser eliminado?

A pergunta tornou-se ainda mais incômoda quando percebi que olhar apenas para Bolsonaro já não me oferecia sequer uma explicação provisória. Durante anos sua figura concentrou tamanha vulgaridade, violência verbal, autoritarismo e desprezo pelas instituições que parecia possível fazer dele o centro do fenômeno que levava seu nome. Mas homens passam.
Processos sociais permanecem, adaptam-se e encontram novos personagens. Bolsonaro pode desaparecer da cena política; aquilo que permitiu que ele existisse politicamente não desaparece com ele.

Foi essa constatação que me fez voltar a textos que escrevi anos atrás. Não os procurei para encontrar neles uma previsão do que viria depois. Historiadores deveriam desconfiar das profecias retrospectivas. Voltei a eles porque queria saber o que eu via quando ainda não sabia exatamente o que estava vendo.

Este não é, portanto, um estudo acadêmico sobre a ascensão da extrema direita no Brasil, tampouco pretende estabelecer uma cadeia de causas capaz de explicar como chegamos até aqui. Não tenho essa resposta — e desconfio das respostas que cabem confortavelmente em uma única explicação. O que faço nestas páginas é uma espécie de genealogia ensaística construída a partir das minhas próprias inquietações, das coisas que escrevi, das que vivi e observei e daquilo que fui lendo ao longo desses anos.

Autores aparecerão pelo caminho porque também fizeram parte desse percurso e me ajudaram a nomear coisas que antes eu apenas pressentia. Meus próprios textos aparecerão porque guardaram as perguntas que fui fazendo em diferentes presentes. Não procuro provar uma tese. Procuro compreender.

Fenômenos sociais não nascem prontos. Possuem gêneses, temporalidades distintas, experiências que os antecedem, ideias que circulam antes de adquirirem nomes e práticas que são ensaiadas antes de serem normalizadas. Algumas permanecem subterrâneas durante anos: outras encontram circunstâncias favoráveis, aderem a novos discursos, incorporam linguagens e conquistam adeptos. São testadas, recusadas, reformuladas, legitimadas. Camadas sucessivas não eliminam necessariamente as anteriores: acomodam-se sobre elas, misturam-se e reaparecem sob novas formas.

Quando comecei a reler o que havia escrito, encontrei desinformação, ressentimento, intolerância, esvaziamento da palavra, transformação do adversário em inimigo e uma democracia que muitas vezes parecia ser experimentada do sofá. Encontrei também perguntas que ficaram sem resposta porque, naquele momento, eu não possuía o repertório que tenho agora e, sobretudo, porque o processo que observava ainda não mostrara todas as suas faces. O tempo depositou outras camadas sobre aquelas inquietações e acontecimentos que me pareciam dispersos começaram a adquirir outra espessura.

Foi assim que voltei a 2014.

Quando eu ainda não sabia o que estava vendo

Reler aquelas palavras foi uma experiência estranha. Não porque tivessem adquirido algum poder premonitório — definitivamente não tinham —, mas porque reconheci nelas uma inquietação que o tempo não dissolveu.

Em Desinformação como tática midiática, eu me preocupava com a responsabilidade dos meios de comunicação, com factoides e meias verdades, mas também com aqueles que repetiam chavões sem interrogar aquilo que recebiam. Como profissional da informação, insistia que não poderíamos ser meros consumidores: informação exigia fonte, contexto, crítica, porque dela também dependiam decisões e o exercício da cidadania.

Naquele momento eu ainda depositava enorme peso nos meios tradicionais de comunicação. As redes já existiam, evidentemente, mas ainda não haviam mostrado toda a sua capacidade de reorganizar a circulação da informação e transformar cada indivíduo simultaneamente em receptor, produtor e distribuidor de conteúdos.

Alguns anos depois, já não seria necessário esperar pelo jornal, pela televisão ou pela revista para fazer uma informação circular. Cada compartilhamento poderia funcionar como pequena estação retransmissora; cada grupo, como espaço de confirmação; cada repetição ajudaria a conferir aparência de verdade àquilo que encontrasse pessoas dispostas a acreditar e reproduzir.

Em Democracia de sofá e mídia partidarizada, em Desagravo paulistano e, depois, em Espólios e escombros de uma campanha, minha preocupação já começava a ultrapassar a informação e alcançar a própria experiência democrática. Eu tentava compreender escolhas eleitorais, despolitização, intolerância, xenofobia, ódio partidário e a incapacidade crescente de aceitar o outro como adversário legítimo.

Em Desagravo paulistano, a pergunta era quase desarmantemente simples: o que foi que aconteceu? Anos depois, descubro que continuo fazendo a mesma pergunta. Apenas seu objeto cresceu.

Há algo especialmente desconcertante em reler Espólios e escombros de uma campanha. Eu defendia ali uma ideia elementar de democracia: terminado o pleito, o vencedor tornava-se Situação e o derrotado, Oposição: ambos continuavam pertencendo à mesma ordem política.

A oposição deveria vigiar, criticar e propor. O adversário não precisava transformar-se em inimigo a ser destruído porque perder uma eleição não retirava sua legitimidade política. Relido hoje, o texto revela também uma inquietação que eu não saberia dimensionar naquele momento: o temor de que a oposição servisse de abrigo a uma direita retrógrada que permanecera relativamente marginalizada desde a ditadura.

Talvez seja exatamente por isso que esses textos me interessam agora. Eles não explicam o presente, mas registram pequenas alterações de temperatura antes que eu pudesse reconhecer a dimensão do fenômeno. A sociedade conectada parecia ter descoberto não apenas a possibilidade de falar permanentemente, mas de encontrar semelhantes. As redes não inventaram preconceito, intolerância, autoritarismo, racismo, misoginia ou ressentimento: todos possuem histórias muito anteriores a elas. O que ofereceram foi visibilidade, velocidade, repetição e, sobretudo, companhia.

Descobrir que outros pensavam da mesma maneira produzia pertencimento. Aquilo que alguém talvez dissesse constrangidamente numa mesa de jantar podia encontrar milhares de aprovações na tela. O comentário que antes provocaria silêncio passava a receber aplausos. O preconceito encontrava semelhantes, o ressentimento encontrava linguagem e a raiva encontrava comunidade.

Pouco a pouco, aquilo que precisava ser dito em voz baixa encontrava autorização para aumentar o volume.

Em 2015, quando escrevi Mídia hegemônica e seu séquito de midiotas, a inquietação continuava. Eu falava de pensamento maniqueísta, de pessoas incapazes de perceber contextos e conexões, de rancores e preconceitos reproduzidos como chavões. Cheguei a tratar da autoculpabilização: a facilidade com que desemprego, baixa remuneração ou dificuldades pessoais podiam ser interpretados como fracassos exclusivamente individuais, apagando as condições sociais que também os produziam.

Naquele momento, essas questões estavam espalhadas pelo texto. Hoje consigo perceber que algumas delas voltariam a se encontrar sob outras linguagens: mérito, empreendedorismo, prosperidade, responsabilidade individual. Não preciso resolver aqui uma relação que merece reflexão própria. Basta reconhecer que o sedimento também estava lá.

Quatro anos depois de 2014, a sensação já era outra.

Em Quando a ficção vem pra rua, aquilo que durante muito tempo eu encontrara nos livros de História, nas pesquisas e nos depoimentos de História Oral sobre os anos de chumbo parecia ter abandonado as páginas. O fascismo que eu conhecera intelectualmente adquiria rostos próximos. Eu o percebia nas ruas, nas conversas e, com enorme virulência, nas redes sociais.

O que mais me estarrecia era descobrir que aquela brutalidade não pertencia a uma classe, renda ou nível de escolaridade. Pobres e ricos, diplomados e analfabetos podiam compartilhar pensamentos igualmente rasteiros diante da diferença.

Essa constatação ainda me parece importante porque impede uma explicação confortável: não podemos atribuir a adesão ao autoritarismo simplesmente à ignorância ou à fragilidade de algumas pessoas. Há gente vulnerável, certamente, mas há também gente instruída, rica e poderosa que encontra razões muito concretas para aderir a projetos autoritários. Uns procuram pertencimento; outros, segurança; alguns encontram confirmação moral para seus preconceitos; outros defendem interesses, posições e hierarquias que não desejam perder.

Foi naquele texto de 2018 que usei uma palavra que hoje me parece muito maior do que quando a escrevi. Ao perceber o mal sendo reconhecido, amplificado e disseminado, concluí que bastava alguém disposto a cultivá-lo.

Eu ainda não havia percebido a dimensão histórica do verbo.

Cultivar pressupõe terreno e tempo. Pressupõe algo que já existe em estado de possibilidade e encontra condições para crescer. É exatamente isso que me impede agora de fazer de Bolsonaro a origem do processo. Ele não inventou o ressentimento, o autoritarismo, o anticomunismo, a misoginia, o racismo, a antipolítica ou o desejo de encontrar respostas simples para problemas sociais complexos. Reuniu elementos que já circulavam, ofereceu-lhes linguagem e autorização e tornou possível que pessoas que antes talvez escondessem determinados pensamentos passassem a exibi-los como identidade política.

Bolsonaro não criou o ovo.
O terreno era mais antigo e o precedia.

Quando comecei a olhar para as camadas anteriores, uma delas me levou às transformações ocorridas no campo religioso brasileiro nas últimas décadas do século XX. É preciso cuidado aqui. “Os evangélicos” não constituem um bloco único e nunca constituíram. Existem tradições, igrejas, interpretações teológicas e posições políticas profundamente diferentes entre si. O que me interessa é perceber que determinadas correntes construíram, durante décadas, relações cada vez mais intensas entre religião, vida social e poder.

A entrada organizada de setores evangélicos na política, especialmente visível a partir dos anos 1980, oferece uma temporalidade que me interessa. Quarenta anos são tempo suficiente para plantar ideias, criar instituições, formar lideranças, construir meios de comunicação, estabelecer redes de sociabilidade, eleger representantes e fazer com que determinadas linguagens passem de uma geração a outra.

O antigo princípio segundo o qual religião e política deveriam permanecer relativamente apartadas foi dando lugar, em alguns segmentos, à necessidade de representação e, posteriormente, à ambição de influenciar os valores pelos quais a sociedade inteira deveria organizar-se.

Foi olhando para essa camada que comecei a aproximar coisas que durante muito tempo me pareceram separadas.

Uma delas foi a Teologia da Prosperidade.

A associação entre prosperidade material e bênção modifica profundamente o significado moral da riqueza. Dinheiro, sucesso e ascensão deixam de precisar ser vistos com constrangimento religioso e podem tornar-se testemunhos visíveis de uma relação bem-sucedida com Deus.

É justamente aí que uma linguagem religiosa consegue encontrar outras duas linguagens poderosas do nosso tempo: empreendedorismo e meritocracia.

O empreendedor diz que venceu porque trabalhou. A meritocracia acrescenta que sua vitória comprova seu merecimento. A prosperidade pode acrescentar ainda uma terceira legitimação: sua vitória revela a bênção.

Não são ideias idênticas e tampouco nasceram juntas. Mas conseguem conversar muito bem.

E a pergunta que essa conversa produz me incomoda mais do que a celebração da riqueza: se a prosperidade confirma mérito e bênção, o que explica aquele que não prospera?

A pobreza, o desemprego e o fracasso podem perder progressivamente sua dimensão histórica e social e retornar ao indivíduo como insuficiência. Faltou esforço, capacidade, fé ou sacrifício. A responsabilidade encontra um endereço conveniente e as estruturas que distribuem oportunidades de maneira profundamente desigual desaparecem da explicação.

Talvez por isso eu continue me perguntando sobre algo que ocorreu durante os governos Lula. Políticas públicas modificaram materialmente a vida de milhões de brasileiros, mas usufruir um direito não significa compreender historicamente as condições políticas que permitiram sua existência.

Uma pessoa pode ter sua trajetória profundamente favorecida por políticas coletivas e, ainda assim, reconstruí-la pela gramática exclusiva do mérito: trabalhei, consegui, ninguém me deu nada. Seu esforço é real; o problema começa quando ele apaga tudo aquilo que tornou esse esforço capaz de produzir determinados resultados.

Não sei se um dos grandes limites daqueles governos esteve justamente em modificar condições materiais sem produzir, na mesma proporção, compreensão política sobre a construção dos direitos. Deixo a questão aberta porque é assim que ela existe para mim. Mas é difícil não perceber como a narrativa do mérito individual pode conviver perfeitamente com políticas que tornaram possíveis muitas trajetórias narradas depois como conquistas exclusivamente pessoais.

Da bênção ao domínio

Prosperar, porém, ainda não significa governar. Foi outra camada religiosa que me fez pensar sobre essa passagem.

A chamada Teologia do Domínio, associada em determinados ambientes à Batalha Espiritual e à própria Teologia da Prosperidade, introduz uma dimensão diferente: não basta transformar o indivíduo ou alcançar prosperidade dentro do mundo; é preciso disputar os lugares nos quais o mundo é organizado. Política, educação, cultura e instituições passam a ser territórios sobre os quais valores religiosos também devem exercer influência.

É uma mudança importante porque altera a relação com a diferença. Representação política é parte da democracia: grupos religiosos possuem o mesmo direito de eleger representantes e defender seus interesses que qualquer outro grupo social. O problema aparece quando representar deixa de bastar e a pluralidade começa a ser percebida como obstáculo a ser vencido.

A Batalha Espiritual oferece então um vocabulário poderoso. Bem e Mal não negociam. Deus e o Diabo não formam coalizões. Quando essa gramática começa a organizar também a percepção da política, o adversário corre o risco de deixar de ser alguém cuja proposta desejo derrotar nas urnas e transformar-se em inimigo cuja própria presença ameaça uma ordem considerada verdadeira.

Volto então ao que escrevia em 2014 e percebo por que a distinção entre adversário e inimigo adquiriu tamanha importância para mim. A Democracia exige reconhecer que aquele de quem discordo continuará possuindo direito à palavra, à organização, à representação e à existência política depois que a eleição terminar.

Mas como negociar com alguém que passou a representar o Mal? Como aceitar alternância de poder quando a vitória do outro pode ser interpretada como triunfo de forças que deveriam ser combatidas?

Foi nesse ponto que Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, passou a conversar de outra maneira com minhas inquietações. Democracias não precisam desaparecer apenas sob tanques. Podem ser corroídas internamente quando atores legitimados pelo próprio voto enfraquecem pouco a pouco as normas que tornam possível a convivência democrática. A eleição, nesse caso, não imuniza uma sociedade contra o autoritarismo. Pode ser justamente o caminho pelo qual ele alcança as instituições.

É também por isso que tenho dificuldade em chamar tudo isso simplesmente de conservadorismo. Conservadorismo possui história, assim como reacionarismo. Quem deseja preservar determinadas instituições ou tradições não é necessariamente igual àquele que pretende restaurar hierarquias perdidas, retirar direitos ou fazer retroceder transformações sociais já consolidadas.

Perguntar o que alguém deseja conservar é diferente de perguntar o que deseja restaurar — e mais diferente ainda de perguntar o que está disposto a destruir para conseguir fazê-lo.

O rei pecador

Foi nesse percurso que outra imagem começou a me interessar: Davi.

Não se trata de afirmar que determinadas correntes religiosas tenham simplesmente substituído Jesus por Davi. Isso seria uma simplificação tão grande quanto aquelas que venho criticando. O que me interessa é perceber o que a figura do rei bíblico permite pensar sobre a relação entre poder, eleição divina e transgressão moral.

Davi é rei, guerreiro e ungido, mas também pecador. E justamente por isso oferece uma figura política intrigante: alguém pode falhar moralmente sem deixar de ser considerado escolhido para cumprir uma missão.

Isso ajuda a tornar mais complexa uma pergunta que me acompanha há anos. Como discursos políticos profundamente moralizadores conseguem conviver com tamanha tolerância às transgressões daqueles que reconhecem como seus líderes? Talvez chamar tudo de hipocrisia seja insuficiente. Se o líder é percebido como instrumento de uma missão superior, suas falhas pessoais podem tornar-se secundárias diante daquilo que se acredita que ele esteja destinado a realizar. Importa menos aquilo que ele faz em sua vida privada do que os inimigos que combate e a ordem que promete restaurar.

O pecador pode continuar ungido.

E essa possibilidade modifica bastante a maneira de compreender a aparente contradição entre rigor moral para os outros e tolerância moral para os próprios líderes.

O pertencimento também produz silêncio

Ainda assim, doutrinas e discursos não explicam sozinhos por que as pessoas permanecem dentro deles. Uma igreja não é apenas o lugar onde alguém escuta determinada interpretação das Escrituras. Pode ser amizade, família, assistência numa dificuldade, trabalho, música, lazer, cuidado dos filhos, reconhecimento e identidade. Para muita gente, é uma parte importante do próprio mundo social.

Questionar uma crença, portanto, pode custar muito mais do que mudar de opinião.

Pode significar colocar em risco vínculos, reconhecimento e pertencimento. É por isso que já não me satisfaz explicar determinadas adesões pela ideia de “mentes frágeis”. Além de condescendente, a expressão não explica por que pessoas escolarizadas, ricas e socialmente poderosas aderem aos mesmos projetos. As razões são muitas e podem inclusive coexistir: fé sincera, medo, ressentimento, proteção, interesse econômico, desejo de poder, necessidade de reconhecimento ou simplesmente a dificuldade de romper com o mundo ao qual se pertence.

Quando uma identidade depende da adesão, a dúvida adquire custo social. E aquilo que vale para uma comunidade religiosa pode valer igualmente para grupos políticos, comunidades digitais e movimentos ideológicos. Questionar deixa de significar apenas pensar de outra maneira; pode significar trair os seus.

Por isso o pertencimento também produz silêncio.

Ninguém acorda em Gilead

Foi talvez por essa razão que O Conto da Aia, de Margaret Atwood, começou a me parecer menos uma referência distante. Não porque eu imagine o Brasil transformando-se literalmente em Gilead. Distopias não precisam prever o futuro para nos ajudar a pensar sobre ele. Elas trabalham com possibilidades humanas que a História, muitas vezes, já experimentou sob outras formas.

Ninguém acorda subitamente em Gilead. Antes das vestes vermelhas, alguma coisa precisa ter acontecido com as palavras, com os direitos, com a percepção do outro, com as instituições, com os corpos e com a relação entre religião e poder. Certas coisas precisam tornar-se aceitáveis e outras precisam deixar de causar espanto. Direitos podem começar a parecer excessos; diferenças, ameaças; adversários, inimigos. E uma interpretação religiosa particular pode reivindicar para si o direito de organizar também a existência daqueles que não a professam.

É isso que me assusta na imagem de Gilead: não o seu exotismo distópico, mas a possibilidade de reconhecer os mecanismos pelos quais uma sociedade pode chegar até ela.

Quando as palavras secaram

Em janeiro de 2019 escrevi Quando as palavras secam. Depois de tantos anos escrevendo, experimentava uma sensação estranha: o excesso de realidade parecia produzir escassez de linguagem. A vulgaridade havia conquistado legitimidade política, a ignorância podia ser exibida como autenticidade e a sucessão de acontecimentos era tão veloz que qualquer reflexão parecia envelhecer antes de terminar.

Naquele momento, Bolsonaro ocupava praticamente todo o horizonte.

Hoje consigo vê-lo numa escala diferente. Ele não era o começo e provavelmente também não será o fim. Indivíduos perdem eleições, envelhecem, desaparecem ou morrem; processos sociais não obedecem à biografia de seus personagens. Podem produzir sucessores, herdeiros, imitadores e versões mais adaptadas ao tempo seguinte. Podem chegar ao Congresso pela notoriedade das redes, pelo ressentimento convertido em audiência, pela religião transformada em identidade política, pelo mérito convertido em explicação do mundo e pelo adversário transformado em inimigo.

E chegam pelo voto.

É aqui que minha perplexidade retorna ao ponto de partida e explica por que voltei aos textos que escrevi tantos anos atrás. Minha pergunta já não é apenas como Bolsonaro foi possível, mas que sociedade continua tornando possíveis personagens que oferecem ruído onde deveria haver projeto, inimigos onde deveria haver adversários e destruição onde deveria haver disputa democrática.

Não tenho uma resposta e talvez esta genealogia tenha produzido mais perguntas do que aquelas com que comecei. Mas a releitura permitiu reconhecer sedimentos que, vistos separadamente, pareciam pertencer a histórias diferentes: desinformação, ressentimento, religião, prosperidade, mérito, empreendedorismo, pertencimento, antipolítica, redes sociais, reação e autoritarismo. Não constituem uma engrenagem perfeita nem uma sucessão inevitável. Aproximaram-se, misturaram-se, encontraram afinidades e interesses e produziram combinações que diferentes pessoas acolheram por razões também diferentes.

Em 2014 eu via algumas dessas coisas sem ainda saber como nomeá-las. Em 2018 já as encontrava nas ruas. Em 2019 elas me secavam as palavras. Hoje volto àquelas páginas e percebo que estava olhando acontecimentos enquanto o tempo ainda depositava as camadas que me permitiriam enxergar um processo.

Talvez seja essa a única certeza que esta escavação me deixou.

Bolsonaro não criou o ovo da serpente.

Quando finalmente conseguimos vê-lo, ele já vinha sendo gestado havia muito tempo.

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