🟢℞ “Interdisciplinaridade não significa que todas as disciplinas façam a mesma coisa. Significa que cada uma contribui com aquilo que lhe é próprio com rigor metodológico”
🧾 Prescrição conceitual: Eliana Rezende Bethancourt, Profª Drª
🔴 Gravidade
Equívoco grave — produz projetos conceitualmente frágeis, compromete arquivos, descaracteriza coleções, transforma Centros de Memória em espaços híbridos sem identidade e dificulta a preservação adequada dos diferentes conjuntos documentais.
🩺 Sintoma
Como o equívoco costuma aparecer no cotidiano.
Uma organização decide criar um Centro de Memória.
Reúne documentos arquivísticos, fotografias, máquinas antigas, troféus, uniformes, obras de arte, depoimentos orais, livros, objetos tridimensionais e brindes institucionais em um mesmo espaço.
A partir daí, espera-se que tudo seja tratado da mesma maneira. Surgem ideias de organização temática.
Os documentos passam a ser expostos como peças museológicas.
Os objetos recebem descrição que muitas vezes passam longe da arquivística.
As fotografias são retiradas de seus conjuntos para ilustrar paredes, perdem contexto e ganham como descrição uma legenda.
Os depoimentos transformam-se em peças comemorativas, e em muitos casos confundidos com storytelling
O resultado costuma parecer bonito.
Metodologicamente, porém, torna-se extremamente frágil.
🔬 Diagnóstico
Onde está o erro conceitual.
O equívoco não está na interdisciplinaridade.
Está na perda do respeito as fronteiras metodológicas no tratamento técnico documental.
Arquivologia, História, Museologia, Biblioteconomia, História Oral e Ciência da Informação dialogam continuamente e enriquecem umas às outras.
Mas cada uma possui objeto, método, princípios e procedimentos próprios.
Quando essas diferenças deixam de ser reconhecidas, os conjuntos documentais passam a receber tratamentos incompatíveis com sua natureza. O que se consegue é uma miscelânea que só serve a leigos em ambientes institucionais. Do ponto de vista de rigor teórico e metodológico passam longe do que seja correto e coerente.
💊 Princípio ativo
Projetos de Memória Institucional costumam reunir conjuntos documentais muito diversos.
Essa diversidade constitui uma de suas maiores riquezas.
Mas exige reconhecer que documentos arquivísticos, coleções museológicas, bibliotecas, registros audiovisuais e depoimentos orais não pertencem ao mesmo universo metodológico.
Cada conjunto demanda formas específicas de organização, descrição, preservação e acesso.
Um arquivo continua sendo arquivo.
Uma coleção continua sendo coleção.
Um objeto museológico continua sendo objeto museológico.
Um depoimento de História Oral continua sendo uma fonte construída por metodologia própria.
A interdisciplinaridade não consiste em apagar essas diferenças.
Consiste justamente em permitir que cada disciplina contribua com aquilo que faz melhor.
Projetos de Gestão Arquivística Documental corretamente estruturados não produzem esses equívocos.
Eles preservam organicidade, proveniência e contexto.
As confusões surgem, em geral, quando Projetos de Memória Institucional ou iniciativas institucionais passam a aplicar indistintamente uma única lógica a conjuntos documentais de naturezas diversas.
O problema não é reunir diferentes patrimônios.
É tratá-los como se fossem a mesma coisa.
GUARDE BEM
🌿 “Os maiores equívocos não nascem dentro das disciplinas. Nascem exatamente nas fronteiras onde elas deixam de reconhecer seus próprios limite“
🌿 “Interdisciplinaridade não significa sincretismo metodológico“
Essa ideia é profundamente interessante porque não coloca Arquivologia, História, Museologia ou Memória em disputa. Ao contrário, mostra que o diálogo só é fecundo quando cada campo preserva sua identidade metodológica. A Farmacopeia dos Equívocos não combate a interdisciplinaridade: combate a perda do método. E há uma enorme diferença entre uma coisa e outra. 🌿📜💊
🌱 Efeitos terapêuticos
Ao reconhecer a especificidade de cada disciplina, os Centros de Memória tornam-se espaços muito mais ricos.
Arquivos preservam evidências.
Objetos revelam cultura material.
Depoimentos registram experiências.
Fotografias documentam práticas sociais.
Bibliotecas organizam produção bibliográfica.
Juntos, esses conjuntos ampliam as possibilidades de compreensão da trajetória institucional sem perder sua identidade metodológica.
📚 Tratamento complementar
🌿 Centro de Memória não é gabinete de curiosidades.
🌿 Arquivo ou coleção?
🌿 Documento = informação + suporte.
🌿 Cultura material e objetos tridimensionais.
🌿 História Oral: quando a experiência ganha voz.
🌿 Memória institucional não é museu.
⚕️ Posologia
Administrar sempre que alguém afirmar que “é tudo documento”, “é tudo memória” ou “vamos organizar tudo do mesmo jeito”.
Em casos persistentes de sincretismo metodológico, recomenda-se tratamento intensivo com doses elevadas de Arquivologia, Museologia, História, História Oral e Ciência da Informação, respeitando rigorosamente as competências de cada campo.
Persistindo os sintomas, consulte outras prescrições da Farmacopeia dos Equívocos ou procure o Pronto Atendimento da ER Consultoria.
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