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Dados podem ser silenciosos se não entendermos contextos

Por: Eliana Rezende Bethancourt

Comecei pela leitura de uma pesquisa sobre empregos. O LinkedIn reuniu os 25 cargos que mais crescem no Brasil em 2026, a partir da análise de movimentações profissionais, contratações e tendências observadas na plataforma. Na lista aparecem engenheiros de Inteligência Artificial, técnicos de enfermagem, planejadores financeiros, profissionais de assuntos regulatórios, geofísicos, engenheiros de segurança e confiabilidade, cientistas agrários, profissionais de dados, pesquisa clínica, manufatura, auditoria, cadeia de suprimentos, recrutamento, planejamento estratégico, energia, sustentabilidade, operações, compliance e qualidade. O conjunto desenha um mercado fortemente atravessado por tecnologia, gestão, eficiência, regulação, controle e aplicação técnica.

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Os dados estavam ali. Claros, organizados, aparentemente suficientes. Ainda assim, alguma coisa me incomodava.

Voltei à lista. Li novamente. Procurei não apenas as profissões que apareciam, mas os campos de conhecimento que elas mobilizavam. E foi então que a pergunta mudou. Já não me interessava somente saber quais eram os empregos em crescimento. Comecei a procurar aqueles que não estavam ali.

Onde estavam as Humanidades?

História, Filosofia, Sociologia, Letras, Artes, Patrimônio, Museologia, Arquivologia e tantos outros campos relacionados à cultura, à interpretação, à memória, à produção simbólica e à compreensão das sociedades não apareciam entre aquelas 25 ocupações. A ausência, evidentemente, não invalida a pesquisa. Todo levantamento responde aos critérios, ao universo documental e à metodologia a partir dos quais foi produzido. Mas é justamente nesse ponto que começa o trabalho de interpretação: compreender o que os dados permitem afirmar e, ao mesmo tempo, perceber as perguntas que eles não foram produzidos para responder.

Seria fácil explicar a ausência das Humanidades se estivéssemos diante de atividades economicamente residuais, confinadas a pequenos nichos profissionais, sem geração expressiva de trabalho ou renda. Mas não estamos.

A chamada Economia Criativa torna essa explicação muito mais difícil. Sob essa denominação convivem atividades nas quais conhecimento, criatividade, cultura, criação intelectual e dimensão simbólica participam diretamente da produção de valor. Artes, patrimônio, literatura, audiovisual, música, design, arquitetura, produção cultural, artesanato, gastronomia e muitas outras atividades encontram-se nesse território, algumas profundamente atravessadas pelas Humanidades, outras constituídas justamente nas intersecções entre conhecimento humanístico, criação, técnica e tecnologia.

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É uma economia que produz bens e serviços, movimenta recursos, gera trabalho e renda. Mas sua matéria-prima nem sempre é tangível. Conhecimento, repertório, memória, criação, linguagem, experiência, saberes e patrimônio também participam daquilo que se produz. E talvez resida aí uma primeira dificuldade: estamos acostumados a reconhecer mais facilmente aquilo que podemos contar, pesar, reproduzir, escalar ou converter rapidamente em resultado.

Os números da própria Economia Criativa tornam ainda mais difícil considerá-la periférica. Dados do Observatório da Fundação Itaú indicam que a Economia da Cultura e das Indústrias Criativas alcançou 7,747 milhões de trabalhadores no quarto trimestre de 2023. Em relação ao mesmo período do ano anterior, houve crescimento de 4% no emprego, correspondente a aproximadamente 287 mil postos de trabalho, enquanto a economia brasileira como um todo apresentou crescimento de 2% no mesmo intervalo.

A pergunta, portanto, tornou-se ainda mais incômoda.

Se estamos falando de milhões de trabalhadores, geração de renda, atividades produtivas e participação econômica concreta, por que uma parcela tão significativa desse universo parece desaparecer quando determinadas representações do futuro do trabalho são construídas?

E foi seguindo essa ausência que cheguei a outra pesquisa.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em parceria com o Observatório da Economia Criativa da Bahia, realizou a pesquisa Patrimônio Cultural, Economia e Sustentabilidade, voltada à compreensão das dinâmicas econômicas associadas ao patrimônio cultural brasileiro. Em sua etapa preliminar, foram entrevistadas 182 pessoas relacionadas a seis bens culturais materiais e imateriais, entre abril e outubro de 2025.

Estamos diante de outro universo de pesquisa, outras perguntas e outra metodologia. Não seria metodologicamente correto colocar os números do IPHAN e do LinkedIn lado a lado como se medissem o mesmo fenômeno. Mas foi justamente a diferença entre eles que me interessou. Uma pesquisa mostrava aquilo que crescia e adquiria visibilidade no mercado de trabalho. A outra permitia observar o que acontecia com pessoas cuja atividade se encontra em um campo econômico e cultural que raramente ocupa o centro dessas projeções.

E os resultados são eloquentes.

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Entre os agentes culturais pesquisados pelo IPHAN, 46% dedicam mais de 40 horas semanais ao trabalho relacionado ao patrimônio cultural. Entretanto, apenas 27% conseguem sobreviver exclusivamente dessa atividade. Entre aqueles cuja renda não provém integralmente desse trabalho, 84% afirmaram que se dedicariam exclusivamente a ele caso isso fosse economicamente possível, e 96% consideram que essa dedicação seria benéfica para a salvaguarda ou preservação do próprio bem cultural. Mais ainda: 64% apontam a sustentabilidade econômica como o maior risco ou ameaça à continuidade do patrimônio.

De repente, aquilo que parecia apenas uma ausência na primeira lista ganhava outra espessura.

Essas pessoas trabalham. Produzem. Criam. Preservam. Transmitem saberes. Movimentam cadeias econômicas. Algumas oferecem aulas e oficinas; outras trabalham com apresentações, artesanato, gastronomia, serviços educativos, turismo e diferentes atividades relacionadas aos bens culturais. A própria pesquisa do IPHAN identifica processos de criação e produção, disseminação e consumo, preservação e transmissão.

Mas existe uma diferença perturbadora entre produzir valor e conseguir viver do valor que se produz.

Quase metade dos pesquisados dedica ao patrimônio uma jornada superior a quarenta horas semanais, mas pouco mais de um quarto consegue retirar exclusivamente desse trabalho as condições de sua sobrevivência. Não estamos, portanto, diante de falta de trabalho. Tampouco diante de ausência de dedicação, conhecimento ou atividade econômica. Estamos diante de algo muito mais complexo: formas de trabalho cujo valor social, cultural e histórico pode ser reconhecido e, ainda assim, não encontrar correspondência econômica suficiente para sustentar aqueles que o produzem.

A contradição se torna ainda maior quando percebemos que a precariedade de quem trabalha com patrimônio não atinge apenas o trabalhador. Atinge o próprio patrimônio.

Se 96% consideram que poder dedicar-se exclusivamente a essas atividades beneficiaria sua salvaguarda, a sustentabilidade econômica daqueles que preservam deixa de ser uma questão individual. Preservar patrimônio implica preservar também as condições de existência daqueles que acumulam conhecimentos, dominam técnicas, transmitem práticas, conservam repertórios e tornam possível sua continuidade.

Talvez esteja aí uma das coisas que os rankings de profissões dificilmente conseguem mostrar.

Vivemos em uma sociedade que aprendeu a reconhecer valor por meio de métricas. Crescimento, produtividade, escala, rentabilidade, desempenho, retorno, eficiência e velocidade oferecem números comparáveis e parecem tornar o mundo mais inteligível. São instrumentos indispensáveis. O problema começa quando deixamos de tratá-los como instrumentos e passamos a confundi-los com a própria realidade.

Porque nem tudo aquilo que possui valor produz evidências imediatas de seu valor.

A Economia Criativa torna essa fissura particularmente visível porque parte importante daquilo que produz possui uma dimensão imaterial. Quanto vale preservar um saber? Quanto produz economicamente uma memória mantida viva? Qual é a rentabilidade de transmitir uma técnica entre gerações? Em quanto tempo retorna o investimento feito na conservação de um patrimônio? Como registrar numa planilha aquilo que uma sociedade perderá se deixar desaparecer uma prática, um repertório, um ofício, uma língua, uma coleção, um arquivo ou uma experiência cultural?

Não estou sugerindo com isso que cultura, patrimônio ou Humanidades devam permanecer fora da economia, protegidos por alguma espécie de excepcionalidade romântica. Os próprios números mostram exatamente o contrário. Produzem renda, empregos, bens, serviços, atividades econômicas e cadeias produtivas. Mas produzem também alguma coisa que a contabilidade econômica, sozinha, não consegue abarcar.

Produzem continuidade.

E talvez seja justamente essa palavra que permita compreender por que as Humanidades me fizeram tanta falta naquela primeira lista.

Historiadores, filósofos, sociólogos, antropólogos, profissionais das Letras, das Artes, dos arquivos, dos museus e do patrimônio não trabalham apenas com produtos imediatamente consumíveis. Trabalham também com repertórios acumulados, temporalidades, interpretação, crítica, transmissão, linguagem, experiência social e memória. Seus resultados nem sempre obedecem ao tempo curto da aferição. Muitas vezes, aquilo que produzem só pode ser percebido quando observado na duração.

É um tipo de trabalho particularmente difícil de acomodar em uma sociedade fascinada por métricas e cifras.

Talvez por isso tenhamos nos acostumado tanto a perguntar quanto alguma coisa vale que estejamos progressivamente perdendo a capacidade de perguntar qual é o seu valor.

A diferença parece pequena. Não é.

As cifras registram aquilo que circula, cresce, contrata, vende, remunera e retorna. Precisamos delas para compreender uma sociedade. Mas nenhuma sociedade é constituída apenas daquilo que pode ser contabilizado. Ela também é feita daquilo que acumula, transmite, interpreta, preserva e lega.

Foi por isso que duas pesquisas aparentemente tão diferentes terminaram, para mim, na mesma mesa.

Uma mostrou os empregos que crescem. A outra mostrou pessoas que trabalham intensamente em atividades culturalmente relevantes, participam de uma economia efetiva e, ainda assim, muitas vezes não conseguem sobreviver exclusivamente daquilo que fazem.

Nenhuma delas, isoladamente, respondia à pergunta que passou a me acompanhar.

A pergunta nasceu no intervalo entre ambas.

E talvez seja esse o ponto que mais me interesse quando trabalho com dados: eles nunca chegam até nós carregando, sozinhos, todos os seus contextos. Foram produzidos para responder determinadas perguntas, segundo certos recortes, critérios e universos de observação. Podemos lê-los, quantificá-los, compará-los e construir gráficos impecáveis sem jamais perguntar o que ficou do lado de fora.

Mas, para uma historiadora, aquilo que não está no documento também pode fazer nascer uma pergunta.

Não para preencher o silêncio com aquilo que gostaríamos de encontrar. Não para transformar ausência em prova. Mas para investigar por que determinadas presenças se tornam tão facilmente visíveis enquanto outras exigem que mudemos o ângulo do olhar.

Foi assim que comecei procurando profissões e terminei pensando sobre valor.

Talvez, portanto, minha pergunta inicial estivesse incompleta. Já não me interessa apenas saber por que as Humanidades não aparecem entre os empregos em maior crescimento. Interessa-me compreender o que nossos instrumentos de mensuração conseguem enxergar quando olham para o trabalho — e o que permanece fora do enquadramento porque produz um tipo de valor que não se converte inteiramente em cifras.

Dados são fundamentais. Mas dados podem permanecer silenciosos quando não compreendemos seus contextos.

E, às vezes, o dado mais inquietante de uma pesquisa não está entre aqueles que ela apresenta.

Está na pergunta que nasce quando percebemos aquilo que não está lá.

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